05 xullo 2022

Conto 84 : Espantalho




 

Espantalho


Um paxarinho pousou-se na ponla
duma cerdeira, atacada de froito
e de súpeto espantou-se
quando viu ao espantalho.

Caiu co sobressalto ao chan
e com tam mala fortuna
que estava tam cheio de lama,
que semelhava um lameiro,
de tanto como chovera.

Entom nom dava levantado o voo
por muito esforço que fazia.

Ao vé-lo o espantalho tam apurado,
quijo achegar-lhe a sua ajuda.

- Eu quero-te ajudar, paxarinho,
mas estou aqui imóvel.

- Que podo fazer por ti ?

-- Raios, nom sei !.
A o melhor podes soprar
para expulsar-me a lama
e secar-me as ás.

- Eu nunca figem tal cousa !,
mas podo provar.
Tampouco sabia que podia falar
e velaí tés.

- Dou soprado algo,
mas é impossível
que o aire chegue onda ti.

- Poderias subir por riba de mim
e secar-te nestes farricalhos
que me pugérom de vestido
e dipois deitas-te ao sol
nas ás do meu sombreiro de palha,
até que che enxugue a lama.

Trepou o paxarinho polo espantalho arriba,
espuxando-se pola roupa velha
e deitou-se ao sol no enxebre chapéu.

Logo que sentiu que podia mover as ás
pudo volver a pousar-se na cerdeira.

Come as cereijas !, dizia-lhe o espantalho.

- Total, enriba de todo
os donos nom dam chegado
e as que colhem de baixo
a mitade tiram com elas
porque seica tenhem habitantes,
que por outra banda,
a ti seguro que che prestam bem.

- Come paxarinho e marcha cos teus.
O que vés relumbrar dando voltas,
nom lhe tenhas medo ningum.
É uma caralhada,
que quigerom-na encolgar
para espantar-vós tamém.

Quando se fartou de comer o paxarinho, 
pousou-se no nariz do espantalho.
Entom iste soprou-lhe bem forte
e botou-no a voar feliz e contente.

🌟



Moradelha editora




01 xullo 2022

Conto 83 : Celsa

 


Celsa
a nai de Alfredo


Dera no queixo co mango da peta,
dende entom ao falar, eu nom o entendo,
fálache sempre coa boca retorta
e mira pra um co bico mirrado.

Nunca sei se no leite, quere migar,
pra dizer que si, esfarangulha os dedos,
quando nom o fai é que quere molhar,
nom sei que hei fazer com iste Alferedo !.

Nom pergunto como lhe vam as cousas
e deixo-o que faga à sua maneira,
co medo a entender duma cousa outra.

Cos pés a noventa graus caminhava,
coma se tivera dor entras pernas
ou levara um couce ali onde nom soa.

🌟



Moradelha editora





19 xuño 2022

Conto 82 : Xan das Airas

 


Xan das Airas
Sonhos dum tolinho



Sintiu-se cum mal de olho,
de gato preto gardunho,
cum desafío de guerra.
Uma manhá fria de outono
escondendo-se já a Lua
alá no cabo do Mundo.

Petava nas portas um vento
enmeigado e forte de nordés,
avecinhava-se um cru inverno
entras fopas secas e os cardés.

O único agarimo quente
foram-lhe uns brazos penitentes.
Marchava cum escuro adeus,
seu derradeiro estertor,
que nom fora sequer amargo,
senom doce mel dumos beiços.

Vestia pesado pantalom
de pana escura remendada
e jaqueta canadensa
folrada e tamém pesada.
Encolgava do lábio grosso
o seu cigarro apegado.

Ainda que gastava bo lombo,
já lhe pesavam os ossos,
però mais pesava-lhe a palha
naquela sua burra de carga.

Sabiam-lhe muito os canhotos
das silvas verdes, parados. 
Rilhava uma mazán azeda
sentado num velho valado,
duma medrada tojeira, 
coma quem limpava os dentes.

Ouveava a sua cadela
sem que ninguém a mancara.
Chorava-lhe co seu ouveo
à sua fame e à soidade
e a Lua mirava pra ela,
alumeando-lhe os ossos famentos.

Um espelhismo parece
onde um caminho se torce.
Deitou-se Xan, moi bébedo
por riba dumas carqueixas
e foi-no espertar uma lebre
que as suas crianças coidava.

Paroxismo inexplicável
que volveu-no médio parvo
e médio tolo deixou-no,
por nom dizer tolo inteiro.
Sempre penteava ao seu gato
coma se penteara a uma Deusa.

E falava com el, cantando :

"Na cima da tua alma há
uma coroa dourada, imaterial,
milagreira e luminosa
que ao baterem as tuas aas
i esvoaçando-se no ar,
essa coroa envolve-te 
co seu longo colar celestial".

"A minha rede nerviosa
estoupa coa tua fermosura
num tremoso e grande éxtase,
que fai-me sentir divino".

🌟



Moradelha editora





15 xuño 2022

Conto 81 : Paxarinho

 



Paxarinho


Por uma carreira estreita,
duma cidade ampla,
um hominho pequeno
caminha solitário.

Com moi grande coraçom,
caminhando devagar
cum paxarinho na man,
detem-se e da-lhe um bico.

Numha grande alameda,
duma pequena vila,
uma mocinha chora
a perda dum paxaro.

Co coraçom encolhido
e cum retrato na man,
caminha ela a modinho
e detem-se pra dar-lhe um bico.

🌟



Moradelha editora




12 maio 2022

Conto 80 : Lua em flor

 



Lua em flor
véspera das Letras


1
Pola véspera das Letras
chorará contente a Lua.
Com carinha de vergonça
há celebrar esse dia.

2
Pois jeitosa é a nossa língua,
tam pequerrecha ela e velha,
muito vergonçosa e bela,
enxebre coma ningumha.

3
Já tolea a primavera
e hoje a Terra pentea
a prácida Lua cheia
com raios de Sol dourados.

4
Uma meninha eclipsada
co agarimo do Mundo
e polo quente do seu Sol,
na infinitude ascondida.

5
Uma minúscula rainha
na multitude de astros,
hoje polo Sol coroada
e pola Terra apertada.

6
E daram-lhe a sua bendiçom
uma cheia de arpas celestiais,
que tocaram nos coraçons
dos amantes apenados.

7
Umas letrinhas dum berce
acaroaram a sua face
enchendo de amor e flores
os seus regos, os seus mares.

8
Vinte e quatro horas no dia
o Mundo baila para vós.
Seu cobertor é teu manto
o seu som a tua alegria.

9
Uns bicos dos verdes prados
nas tuas fondas cráteras,
calores nos teus desertos
coas suas ferventes entranhas.

10
Da tua resplandor tam branca,
da tua doce palideza,
cheinha de amor i espida
renasce a vida sangrenta.

11
E fai-se noite na Lua
coas sombras da nossa Terra.
Fai-se-lhe noite i é dia
nascendo um jardim de flores.

12
Coa doce aperta do Mundo,
tapando-a co seu abrigo
ate que o seu ardente Sol
bique a ela, namorado.

13
Dará-lhe de luz bocado
à mazán no seu umbigo
i encherá-se o ar de estrofes
que tam só os anjos entendem.

14
Sanarám os ventres todos
dos que esteam afligidos,
sentiram-se toda a noite
os cantares nas adegas.

15
Faram milagres as meigas,
de geonlhos nos altares
parindo velhas poesias,
entre cantos de paxaros.

16
Contando estrelas fugazes,
entranto cantem os grilos,
na noite de pleno Luar,
sentado no meu corredor,

17
estarei lendo Cantares
e olhando ao firmamento,
buscarei-te entre os pulsares,
polo nosso ceo infinito.

🌟



Dezasete de Maio de 2022
Letras galegas



Moradelha editora




20 febreiro 2022

Conto 79 : Carrolinho

 



Carrolinho
Um pito voador 


1
O Carrolinho era um pito
que rabeava por voar
e vivia moi afligido,
ao nom saber suas ás usar.

2
E via cada dia de Deus,
que vinham onda el a jantar
umas pegas e uns pardaus,
que vinham rolas e pombas.

3
Vinham parelhas de merlas,
que agardunhavam na terra 
e outros muitos paxaros
a garular coas galinhas.

4
Alimentavam-se do seu,
no pátio do seu poleiro;
comiam-lhe os seus carrolos
e as suas verzas comiam-lhe.

5
Que tenhem diferente a mim, pensava, 
que podiam viajar polo ar, ser libres.
El batia suas ás e nom dava voado.

6
Entom pujo-se a fazer ginástica
i esvoaçando as ás a cotio e forte,
intentava levantar o seu voo.

7
Vira como umas gaivotas
estavam suspensas no ar
e sem sequer aletejar;
nom moviam nim um chisco as ás.

8
Viu uma águia a muita altura
surcar o aire como um peixe
que polo mar navegara,
numa corrente marinha.

9
E ao ver um galo de bosque,
co seu plumagem brilhante,
do urogalo namorou-se
e já nom parou de esvoaçar.

10 
Quedou parmado cuns patos viajando,
que iam de lagoa em lagoa jogando,
coa sua récua de pequenos nadando.

11
Via transumáncia entras nuvens voando,
uma cheia de espíritos viajeiros.
Aves em formaçom surcando os ceos.

12
Andurinhas, com só meses de vida,
fazendo quilómetros sem descanso,
cara a sua residéncia de inverno. 

13
Uma manhá atopou um vento a favor,
notou aguantar-se suspenso no ar;
um dia dum forte vento, um milagre !.

14
Saiu zurnido polo aire,
sua gram oportunidade
acabava-lhe de chegar,
a sua ocasiom esperada.

15
Agora quando queria voar
esperava um dia de vento,
zapateava-se de riba,
do mais alto do poleiro.

16
E sonhava já o pitinho
noutros Mundos, noutras aves,
conhecer todos os mares,
atravessar o oceano.

17
Flutuar sobre as imensas pradeiras,
onde se sementa o milho a fartura.
Era fabuloso, o poder voar !.

18
Visitou aos seus parentes e irmaos.
Conheceu aves de todo clas, graos,
umas sementes, que el nunca provara.

19
Entranto os pitos durmiam,
o Carrolinho choutava
no pátio do galinheiro,
tam contente coma um cuco.

20
Batia sem parar as ás,
cada dia ía mais alto,
pois com tantos exercícios,
elas forom-lhe medrando.

21
Non queria ir só polo Mundo adiante.
- É um sonho ter um espírito libre,
mais antolha-se-me moi vulnerável.

22
Olhava uma bandada de estorninhos
fazendo elegantes debuxos no ar.
Quem poidera ter seu ingenho, pensou.

23
No buche uma pomba coa sua manteza,
coma quem vai de excursom polos jardins,
voar levando consigo a merenda.

24
Belo seria que um cisne
poidera voar, pensava,
cuma avestruz estivera,
os dous no ar à jogueira.

25
- Os flamingos muito mais grandes ca mim,
voam moi alto e bem juntos no ceo;
fam longas distancias entras marismas.

26
- Eu, algo mais pequerrecho qum pato
e muito mais pequeno qum flamingo, 
como nom vou dar voado !.

27
Viu-se ilusionado e forte
e o Carrolinho volveu-se,
dando volta cara o seu lar,
estranhou jogar coas pitas.

28
Tornava coa gram ilusom
de ensinar a voar tamém,
a outros muitos pitinhos
que coma el poideram viajar.

29
Pousou-se pola manhá num pinheiro
junto a um rouxinol numa ponla a piar
e piavanche chorando coa pena.

30
Viam dende o alto outros pitos,
galos, galinhas e capós,
pechados numas gaiolas,
muito apertados nas granjas.

31
Sendo mantenzas dos homes,
as multitudes de aves,
e de pór ovos escravas; 
de mala rábia chorava.

32
Os seus irmaos nom sabiam
que outra vida existia,
fora de nascer escravo,
para sustento dos outros.

33
Coitado o pobrinho ao saber,
nom teram ocasiom sequer,
de poder ser um ser libre,
nim tam só dous dias ou trés.

34
- Meus irmaos nascem escravos,
números duma gaiola,
mortos de laboratório,
para que outros nom morram.

35
Uma majestuosa pita de monte,
que já tinha visto voar ao pequeno,
apareceu no poleiro uma noite
e a levantar o seu voo animou-no.

36
Esperarom um bom golpe de vento
e a aninhar coas cigonhas marcharom.
E já nom volveu mais ao galinheiro
o Carrolinho, um pitinho voador.

🌟



Moradelha editora




31 outubro 2021

Conto 78 : Morte primeira

 




Morte primeira


Dorme o Mundo,
na sua primeira morte,
num siléncio,
de tempo indefinido.

Espera um mensageiro
que lhe bote a auga fervente
ou que de súpeto o despertem
raios de Sol ardente.

Anda de viagem o Mundo
por um tempo indefinido.
Sem parar de dar voltas,
ainda que morto e durmido.

A sua primeira vida,
numha letargia quedou;
o seu primeiro inverno morto,
pode que tamém primavera.

As suas entranhas diram
quando há de cuspir a lava,
que o retorne a outra vida
e o renasça com força.

Seu ventre rugirá de novo,
qual limpas e brihantes folhas,
de carvalho das Maravilhas,
anunciando a sua nova vida.

Latente espírito de Samaim,
nos sete coraçons vivindo,
que habitaram as sete vidas,
no seu sonho de amores mil.

O gatinho Mundo sonha, 
por um tempo indefinido,
entranto lhe nascem as ás,
nas suas costas ardendo.

🌟



Moradelha editora




12 outubro 2021

Conto 77 : Dorme-vela

 



Dorme-vela


Nom vaia ser o demo,
que namentres que durmo,
apareça a ladroa,
que me rouba os sonhos.

E que encontre-me espido,
indefenso e parmado
e sem força nim ánsia
de enfrontar-me com ela.

No seja o demo,
dipois de toda a vida,
gardando o tesouro herdado,
que m'o roubem durmindo.

Cum suspiro perde-lo,
cum feitiço num sonho,
cum bico envelenado,
cuma aperta de Judas.

🌟



Moradelha editora




11 setembro 2021

Conto 76 : Mundo





Mundo


O ter a voz aguda
nom che dá doçura,
nim um corpo escultural
a fermosura.
Dar uma esmola
nom te fai boa persoa.

Neste Mundo
ninguém é bo,
nim é guapo,
nem é doce.


Ir espido
nom te fai ecológico.
O ter cartos
nom te fai rico.
Fazer regalos
nom che dá generosidade.

Neste Mundo
ninguém é generoso,
nim é rico,
nem natural é.


A juventude
nom te fai inmortal;
nim muita força,
invencível;
nem estar triste,
fai-te infeliz.

Neste Mundo
ninguém é sempre feliz,
nim é moi forte,
nim lhe escapa à morte.


E por sonhar
nom te fas tolo;
nim nom ser tolo
é ter cordura;
nim por amar
és amado.

Neste Mundo
quase todo é artifício,
é egoísmo,
é todo pobre.


Se o porco voara,
porca ave seria.
Quanto estranho
o meu Mundo !.
Quanto estranho
ao mimo podre !.

🌟



Moradelha editora
 



10 abril 2021

Conto 75 : Morreu o Mundo




 

Morreu o Mundo


1
Hoje morreu o Mundo.
O meu gatinho alá vai.
Eu marcho de viagem
ao planeta do rio Sar.

2
Fugindo da soberba
e da manipulaçom,
nom quero mais enganos,
vou en busca da Soidá.

3
Quigem compartir nave,
conhecer gente nova,
que pensei me buscava
e resulta que escapa.

4
Estarei de viagem,
para qualquer comentario,
sabedes o enderezo,
pois nom tem perda algumha.

5
Quando volva já os lerei,
ainda que duas vidas,
já enteiras pasaram,
ao retornar os lerei.

6
Hoje morreu-me o gato,
a partires de agora,
nom estarei para ninguém,
pois quedei sem a vida.

7
A melhor companhia
marchou-me de súpeto.
Estou desorientado,
co espírito orfo.

8
Já nom tenho onde mirar,
nim cousa algunha quero.
Já nom quero adiantar-me
aos acontecementos.

9
Nem podo ser o mesmo.
Eu nom som ninguém sem el.
Marchou a minha vida,
minhas arelas com el.

10
Adeus às esperanças,
pois perdim minha guia,
nom me dou orientado,
marcharei de viagem.

11
Colherei o caminho
da longa soidade,
apertarei seu espírito,
so co meu pensamento.

12
Falarei-lhe nos sonhos,
para que el me desperte
uns novos sentimentos
e a ánsia de viver.

13
Aqui sem el nom tenho
razom nigunha de ser.
Voarei polo espaço,
apertarei sua ánima.

14
Será uma longa viagem
ata que um dia de novo,
o seu espírito puro
me dea uma nova sinal.

15
Inequívoco aceno,
petando-me na alma,
para que poida regresar,
nova vida, novo Lar.

16
Pois neste falso mundo
compria sua companhia,
para sentir e tolerar,
discernir i esquivar.

17
O mesmo que Abraam,
el nom chegaria a entrar
na terra prometida,
Brigantia nom olharei.

18
E nunca verei chegar
à Deusa de Breogám,
pois tenho que abandoar 
sem rémedio iste barco.

19
E fugir longe agora,
do ódio e da soberba.
Já nom tenho inspiraçom
abandou-me o Mundo.

20
Eu ficarei sonhando
no meu planeta do Sar,
para poder-me inspirar
mirando a Rosalia.

🌟



Moradelha editora




08 abril 2021

Conto 74 : Luz viva




Luz viva


Polos pensamentos passeias a alma,
coa aura girando ò azul, descarnada,
um esquelete de fume, invisível,
um espetro de bonequinha do além.

Vejo o teu magnífico aspeto de flor,
com cores radiantes na anatomia.
Luz viva dum coronário latejar,
num divino coraçom imaterial.

Aperto teu espírito co pensamento
e bico os teus beiços co meu alento.
Ingrávida matéria, imám de ánimas,
viajeira polo Universo, Nai de nós.

Como uma choiva de luz, cheia de cores,
banhas a quem te chame e te aperte,
gloriosa, imperial e dominadora,
a tua iluminaçom nos regalas. 

Em trevoadas de altíssimo voltagem,
jogas coma se as tuas entranhas fosem,
como se foram os teus próprios filhos,
que bailam contigo onde ti apareces. 

Deusa da luz viva, aire e éter,
a mesma luz que habita o paraíso,
quenta o seu lume as errantes ánimas
e alumea-nos com sabiduria.

Oxigena coraçons abafados,
pom brétemas frescas nos cansos peitos.
Um rio de vida recorrendo sonhos,
música celestial pra o fino ouvido.

Apariçom a quem che tem devoçom,
que co teu calor fundes-lhe a tristura.
Teu perfume deixa o ar namorado
de inmortal claridade, imaterial.

Semente de eternidades vertendo
polos recunchos do nosso Universo,
magnéticos poderes invisívels,
fonte da saúde, por imaterial.

Convoio i estaçom de sonhos e ilusions,
estrada magnetizada e ingráveda,
mantença clarividente do que sofre,
encantadora de serpes do demo.

Cometa do Mundo que habitas em nós,
és o amor eterno, por imaterial.
Luz viva alumbrando o nosso Universo.
Alma de Deus, nosso amor, nossa vida.

🌟


Moradelha editora



21 decembro 2020

Conto 72 : Chegou o inverno

 




Chegou o inverno
Hibernaçom
 

Apertava os amenceres do verán.
Meus pés bicavam as augas azuis
e os meus sonhos colhiam tua man.
No meu peito um arrecendo de jasmins.

Agora chegou o tempo do inverno
e as nuvens no ceo sonham convosco,
querendo pintar-vos, toda de branco
e a vossa face bicar refrescando.

O azul escuro e vermelho do sol-pór
abre devagar a porta da Lua
e nós, coa nossa fiestra bem aberta,
no nosso privilegiado mirador.

Aquel nosso anaquinho do universo,
Mar de augas de rosas rojas cheio,
rosas brancas coa frescura do inverno,
alentando-nos a vida cum verso.

Quem poidera voltar ali agora,
poder, entras brancas rosas, banhar-me,
alumeado polo clarom da Lua,
sentir do teu corpo a profundidade.

Eu sei que a Lua sempre mira pra vós,
bica os teus olhos co reflexo do Sol
e apaga-se co teu brilho de estrela,
pra que alumees o ceo, luz de Nadal.

🌟



Moradelha editora




13 novembro 2020

Conto 71 : Magosto do Sam Martinho






Magosto do Sam Martinho


1
Eu ía de cara à ermida
caminhando polo souto,
e dum castinheiro caiu,
entro os meus pés um ouriço.

2
Coa cajata afastei-no,
ía trepa-lo pra abri-lo
e agarrarom-me do pé,
abriu-se só o ouriço.

3
E da castanha do médio,
apareceu uma Virgem,
toda vestida de verde, 
coa cabeleira de ouro.

4
E às castanyas das beiras,
sairom-lhe dous meninhos,
os dous vestidos de branco,
dum inmaculado linho.

5
Os nenos coma anjinhos,
voavam arredor de Ela,
bicando-lhe cada pouco
as suas radiantes meixelas.

6
Quedei parmado namentres
mirava pra mim a Santa,
dando-me um bico nos beiços,
desaparecerom os trés.

7
Quando saim ao caminho,
atopei pousado no chan
um queipinho de vímbio,
cheio de castanhas gordotas.

8
E à beira do canastrinho,
uma saqueta de esparto,
acogulada de frouma,
com fio de linho atadinha.

9
Eu mirei en todo arredor,
ali nom havia ninguém.
Num eido de nevoeria,
cheirando o ar à lareira.

10
Chiscava um olho o inverno,
caem as noces das nogueiras,
quedam espidas as vinhas,
cum tapa-rabo vermelho.

11
Churem ainda as carvalhas
e chora a natureza,
pondo-se já em letargo,
chiscava os olhos o inverno.

12
Poucos rapaces na aira.
O gando volve às cortes.
Ouveam lobos coa fame
nos outeiros da lonjura.

13
Cheia de teazas a adega,
cheira-se o vinho novo,
onde inverna um micro-mundo,
madura o néctar da vinha.

14
Corona andar à conversa
nas tardinhas de nevoeria;
rondam os mozos e as mozas,
coas canadiensas já postas.

15
Colhim os presentes nas mans
e levei-nos para casa.
Habilitamos a aira
para fazer o magosto.

16
Pegamos-lhe lume à frouma,
arredor cumhas cabacas.
Todos a cara pintamos
com garabatos queimados.

17
Os nenos pintando o demo,
quecendo arredor do lume.
Era uma noitinha fresca,
pingava em nós uma nuvem.

18
De súpeto trés castanhas
estralarom entre a frouma,
saindo coma foguetes,
disparando-se às nuvens.

19 
E vimos por riba de nós
a trés pombinhas moi brancas,
levando cada uma delas
uma castanya no bico.

20
Marcharom batendo suas aas 
cara o ceo direitinhas,
dasaparecendo no ar,
na noite de nevoeira.

21
Encheu-se o aire de flores,
no chan pétalas de cores,
de rosas e de camélias
e de azuis horténsias.

22
Coa alegria do milagre
aparecerom as gaitas,
bailavam-se muinheiras,
e bebia-se vinho novo.

23
Na noite de Sam Martinho,
nas Airas de Santo Tomé,
muitas castanhas e vinho,
chamavam já polo inverno.

🌟



Moradelha editora




29 outubro 2020

Conto 70 : Verbas no vento





 Verbas no vento


1
Ao fim hoje falou o vento :
dixo-me que há uma mulher,
fermosa coma ningunha,
na cima duma montanya.

2
E quando el ali sopra,
penteando-lhe os cabelos,
ela por mim pergunta,
sentadinha num penedo.

3
Ela en riba daquel monte,
bafejando a natureza,
em pesca da sua pureza,
vai escapando-lhe à morte.

4
Vejo que mira pra Lua,
quando lhe sopro na noite,
e di-me ò ninho da orelha,
que o seu amor tamém olha.

5
Quando a acaroo pola manhá,
olhando o amencer, di-me, 
que vé uns olhinhos ali,
tam madrugueiros como ela.

6
Entom contestei-lhe ao vento :
Sopra com muita doçura,
que é uma rainha de Oriente,
é uma Deusa do Olimpo.

7
Há de presentar-se um dia
a cavalinho teu, vento,
dende moi alto no ceo,
ensinando maravilhas.

8
Ali no monte há uma estrela,
que veu habitar na Terra.
Ali há uma Deusa, vento,
fermosa coma um suspiro.

9
Bicará-se o Sol coa Lua,
cum duplo arco da velha
entro Oriente e Ocidente.
E verá-se uma águia reial.

10
Soprará-lhe o vento ò ouvido,
dando-lhe um bico nas aás,
dizindo-lhe que a leve,
ali onde o dia amence.

11
Que a leve onde sai o Sol,
quem lhe dá a vida e a cor,
que quere aperta-lo forte.
Por favor, levade-me alá.

12
Entom pedim-lhe ao vento :
Di-lhe à mulher fermosa,
que quero-a de bem certo
e nela penso dia e noite.

13
Bica à minha rainha,
da-lhe um bico docemente,
aperta à Deusa de Oriente,
acaroa à minha soidá.

14
Vento, soproche um suspiro,
pra que lho leves a ela.
Leva-lho polo fevereiro,
co arrecendo das mimosas.

🌟


Moradelha editora




Conto 87 : O corvo da Moradelha

  O corvo da Moradelha Quando polos anos 60 triunfavam os Beatles : Em Santomé, polas tardinhas, logo da merenda, os nenos botavan uma parti...