19 xuño 2022

Conto 82 : Xan das Airas

 


Xan das Airas
Sonhos dum tolinho



Sintiu-se cum mal de olho,
de gato preto gardunho,
cum desafío de guerra.
Uma manhá fria de outono
escondendo-se já a Lua
alá no cabo do Mundo.

Petava nas portas um vento
enmeigado e forte de nordés,
avecinhava-se um cru inverno
entras fopas secas e os cardés.

O único agarimo quente
foram-lhe uns brazos penitentes.
Marchava cum escuro adeus,
seu derradeiro estertor,
que nom fora sequer amargo,
senom doce mel dumos beiços.

Vestia pesado pantalom
de pana escura remendada
e jaqueta canadensa
folrada e tamém pesada.
Encolgava do lábio grosso
o seu cigarro apegado.

Ainda que gastava bo lombo,
já lhe pesavam os ossos,
però mais pesava-lhe a palha
naquela sua burra de carga.

Sabiam-lhe muito os canhotos
das silvas verdes, parados. 
Rilhava uma mazán azeda
sentado num velho valado,
duma medrada tojeira, 
coma quem limpava os dentes.

Ouveava a sua cadela
sem que ninguém a mancara.
Chorava-lhe co seu ouveo
à sua fame e à soidade
e a Lua mirava pra ela,
alumeando-lhe os ossos famentos.

Um espelhismo parece
onde um caminho se torce.
Deitou-se Xan, moi bébedo
por riba dumas carqueixas
e foi-no espertar uma lebre
que as suas crianças coidava.

Paroxismo inexplicável
que volveu-no médio parvo
e médio tolo deixou-no,
por nom dizer tolo inteiro.
Sempre penteava ao seu gato
coma se penteara a uma Deusa.

E falava com el, cantando :

"Na cima da tua alma há
uma coroa dourada, imaterial,
milagreira e luminosa
que ao baterem as tuas aas
i esvoaçando-se no ar,
essa coroa envolve-te 
co seu longo colar celestial".

"A minha rede nerviosa
estoupa coa tua fermosura
num tremoso e grande éxtase,
que fai-me sentir divino".

🌟



Moradelha editora





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