Xan das Airas
Sonhos dum tolinho
Sintiu-se cum mal de olho,
de gato preto gardunho,
cum desafío de guerra.
Uma manhá fria de outono
escondendo-se já a Lua
alá no cabo do Mundo.
Petava nas portas um vento
enmeigado e forte de nordés,
avecinhava-se um cru inverno
entras fopas secas e os cardés.
O único agarimo quente
foram-lhe uns brazos penitentes.
Marchava cum escuro adeus,
seu derradeiro estertor,
que nom fora sequer amargo,
senom doce mel dumos beiços.
Vestia pesado pantalom
de pana escura remendada
e jaqueta canadensa
folrada e tamém pesada.
Encolgava do lábio grosso
o seu cigarro apegado.
Ainda que gastava bo lombo,
já lhe pesavam os ossos,
però mais pesava-lhe a palha
naquela sua burra de carga.
Sabiam-lhe muito os canhotos
das silvas verdes, parados.
Rilhava uma mazán azeda
sentado num velho valado,
duma medrada tojeira,
coma quem limpava os dentes.
Ouveava a sua cadela
sem que ninguém a mancara.
Chorava-lhe co seu ouveo
à sua fame e à soidade
e a Lua mirava pra ela,
alumeando-lhe os ossos famentos.
Um espelhismo parece
onde um caminho se torce.
Deitou-se Xan, moi bébedo
por riba dumas carqueixas
e foi-no espertar uma lebre
que as suas crianças coidava.
Paroxismo inexplicável
que volveu-no médio parvo
e médio tolo deixou-no,
por nom dizer tolo inteiro.
Sempre penteava ao seu gato
coma se penteara a uma Deusa.
E falava com el, cantando :
"Na cima da tua alma há
uma coroa dourada, imaterial,
milagreira e luminosa
que ao baterem as tuas aas
i esvoaçando-se no ar,
essa coroa envolve-te
co seu longo colar celestial".
"A minha rede nerviosa
estoupa coa tua fermosura
num tremoso e grande éxtase,
que fai-me sentir divino".
🌟
Moradelha editora
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