21 decembro 2020

Conto 72 : Chegou o inverno

 




Chegou o inverno
Hibernaçom
 

Apertava os amenceres do verán.
Meus pés bicavam as augas azuis
e os meus sonhos colhiam tua man.
No meu peito um arrecendo de jasmins.

Agora chegou o tempo do inverno
e as nuvens no ceo sonham convosco,
querendo pintar-vos, toda de branco
e a vossa face bicar refrescando.

O azul escuro e vermelho do sol-pór
abre devagar a porta da Lua
e nós, coa nossa fiestra bem aberta,
no nosso privilegiado mirador.

Aquel nosso anaquinho do universo,
Mar de augas de rosas rojas cheio,
rosas brancas coa frescura do inverno,
alentando-nos a vida cum verso.

Quem poidera voltar ali agora,
poder, entras brancas rosas, banhar-me,
alumeado polo clarom da Lua,
sentir do teu corpo a profundidade.

Eu sei que a Lua sempre mira pra vós,
bica os teus olhos co reflexo do Sol
e apaga-se co teu brilho de estrela,
pra que alumees o ceo, luz de Nadal.

🌟



Moradelha editora




13 novembro 2020

Conto 71 : Magosto do Sam Martinho






Magosto do Sam Martinho


1
Eu ía de cara à ermida
caminhando polo souto,
e dum castinheiro caiu,
entro os meus pés um ouriço.

2
Coa cajata afastei-no,
ía trepa-lo pra abri-lo
e agarrarom-me do pé,
abriu-se só o ouriço.

3
E da castanha do médio,
apareceu uma Virgem,
toda vestida de verde, 
coa cabeleira de ouro.

4
E às castanyas das beiras,
sairom-lhe dous meninhos,
os dous vestidos de branco,
dum inmaculado linho.

5
Os nenos coma anjinhos,
voavam arredor de Ela,
bicando-lhe cada pouco
as suas radiantes meixelas.

6
Quedei parmado namentres
mirava pra mim a Santa,
dando-me um bico nos beiços,
desaparecerom os trés.

7
Quando saim ao caminho,
atopei pousado no chan
um queipinho de vímbio,
cheio de castanhas gordotas.

8
E à beira do canastrinho,
uma saqueta de esparto,
acogulada de frouma,
com fio de linho atadinha.

9
Eu mirei en todo arredor,
ali nom havia ninguém.
Num eido de nevoeria,
cheirando o ar à lareira.

10
Chiscava um olho o inverno,
caem as noces das nogueiras,
quedam espidas as vinhas,
cum tapa-rabo vermelho.

11
Churem ainda as carvalhas
e chora a natureza,
pondo-se já em letargo,
chiscava os olhos o inverno.

12
Poucos rapaces na aira.
O gando volve às cortes.
Ouveam lobos coa fame
nos outeiros da lonjura.

13
Cheia de teazas a adega,
cheira-se o vinho novo,
onde inverna um micro-mundo,
madura o néctar da vinha.

14
Corona andar à conversa
nas tardinhas de nevoeria;
rondam os mozos e as mozas,
coas canadiensas já postas.

15
Colhim os presentes nas mans
e levei-nos para casa.
Habilitamos a aira
para fazer o magosto.

16
Pegamos-lhe lume à frouma,
arredor cumhas cabacas.
Todos a cara pintamos
com garabatos queimados.

17
Os nenos pintando o demo,
quecendo arredor do lume.
Era uma noitinha fresca,
pingava em nós uma nuvem.

18
De súpeto trés castanhas
estralarom entre a frouma,
saindo coma foguetes,
disparando-se às nuvens.

19 
E vimos por riba de nós
a trés pombinhas moi brancas,
levando cada uma delas
uma castanya no bico.

20
Marcharom batendo suas aas 
cara o ceo direitinhas,
dasaparecendo no ar,
na noite de nevoeira.

21
Encheu-se o aire de flores,
no chan pétalas de cores,
de rosas e de camélias
e de azuis horténsias.

22
Coa alegria do milagre
aparecerom as gaitas,
bailavam-se muinheiras,
e bebia-se vinho novo.

23
Na noite de Sam Martinho,
nas Airas de Santo Tomé,
muitas castanhas e vinho,
chamavam já polo inverno.

🌟



Moradelha editora




29 outubro 2020

Conto 70 : Verbas no vento





 Verbas no vento


1
Ao fim hoje falou o vento :
dixo-me que há uma mulher,
fermosa coma ningunha,
na cima duma montanya.

2
E quando el ali sopra,
penteando-lhe os cabelos,
ela por mim pergunta,
sentadinha num penedo.

3
Ela en riba daquel monte,
bafejando a natureza,
em pesca da sua pureza,
vai escapando-lhe à morte.

4
Vejo que mira pra Lua,
quando lhe sopro na noite,
e di-me ò ninho da orelha,
que o seu amor tamém olha.

5
Quando a acaroo pola manhá,
olhando o amencer, di-me, 
que vé uns olhinhos ali,
tam madrugueiros como ela.

6
Entom contestei-lhe ao vento :
Sopra com muita doçura,
que é uma rainha de Oriente,
é uma Deusa do Olimpo.

7
Há de presentar-se um dia
a cavalinho teu, vento,
dende moi alto no ceo,
ensinando maravilhas.

8
Ali no monte há uma estrela,
que veu habitar na Terra.
Ali há uma Deusa, vento,
fermosa coma um suspiro.

9
Bicará-se o Sol coa Lua,
cum duplo arco da velha
entro Oriente e Ocidente.
E verá-se uma águia reial.

10
Soprará-lhe o vento ò ouvido,
dando-lhe um bico nas aás,
dizindo-lhe que a leve,
ali onde o dia amence.

11
Que a leve onde sai o Sol,
quem lhe dá a vida e a cor,
que quere aperta-lo forte.
Por favor, levade-me alá.

12
Entom pedim-lhe ao vento :
Di-lhe à mulher fermosa,
que quero-a de bem certo
e nela penso dia e noite.

13
Bica à minha rainha,
da-lhe um bico docemente,
aperta à Deusa de Oriente,
acaroa à minha soidá.

14
Vento, soproche um suspiro,
pra que lho leves a ela.
Leva-lho polo fevereiro,
co arrecendo das mimosas.

🌟


Moradelha editora




28 outubro 2020

Conto 69 : Noite de Samaim

 



Noite de Samaim


1
Uma meiguinha dourada,
que me visita de noite,
espe-me corpo e ánima,
para que lhe escape à morte.

2
Ataca-me coa tenrura,
que me desarmam os versos,
defende-se com doçura,
morro de amor nos seus beiços.

3
Ensina a espada vermelha,
cor do sangue derramado,
cor da paixom desenfreada,
de augas geadas arrepio.

4
Lume de amor nos seus olhos,
feitiça-me cum sorriso,
colhe-me a man e som morto,
morto de amor e ledícia.

5
Cinturinha de avéspora,
onde se anudam meus braços,
e no seu peito as meixelas
dum cadavre namorado.

6
Coas meixelas no seu peito,
eu sentim o seu coraçom,
de súpeto volvim em mim,
cos braços atados a ela.

7
Mordim os seus albos peitos,
arrinquei-lhe o seu coraçom,
coloquei-lho nos seus beiços
e caimos mortos os dous.

8
Cem mil bolboretas negras
acudirom ò encontro,
colherom as nossas almas
e levarom-nas ò ceo.

9
Voando em nuvem boreal,
ceo de lume esmeralda,
no ar um amor celestial,
bolboretas e ánimas.

10
Ali nasceu uma roseira,
rosa branca trepadora,
símbolo dum amor puro,
que em dous filhos do além houvo.

11
Ao escuitar o vento irlandés,
soaram gaitas e violins,
sons dum amor verdadeiro,
música dos amadores.

12
Ao mirar o ceo de Irlanda,
vé-se uma casinha verde,
de jeito da flor da paixom,
envolta em nuvens boreais.

13
E suas cores esmeraldas,
duns amores celestiais,
habita-na dous espíritos,
que nasceram duma cançom.

14
Olhando ò sol-pór de Irlanda,
veredes um ceo vermelho,
sangado de dous amantes,
fazendo chorar sangue ò Sol.

🌟


Moradelha editora




20 outubro 2020

Conto 68 : Bolboretas





Bolboretas do além


1
Cuspo a minha aura ao vento,
libro do corpo o bafejo
e caio ò chan desmaiado,
quedo deitado num sonho.

2
Único jeito que atopa
para juntar neste Mundo 
a minha vida coa tua,
entranto habito iste corpo.

3
Que seica nom está feito
para que estea a tua beira;
corpo que vai à ventura,
cumha esperança no ceo.

4
E morrerei em desamor
e de tristura nos sonhos
que onda ti me vam levando,
em duas vidas vivindo.

5
Nom morrerei descaído,
nim hei de morrer coitado;
sonho que me aperta a Lua,
sonho que ti és a Lua.

6
De noite polos telhados
em pesca da tua feitura,
guichando polas fiestras,
buscando uma luz de guia.

7
Vejo mulheres espidas,
nigumha da tua escultura
e chamam por mim as ninfas,
rindo-se na minha cara.

8
Demos de palha com cornos,
negros de espigas de milho,
querem turrar-me as orelhas,
querem queimar-me as entranhas.

9
Eu quero falar e nom dou,
quero berrar e nom podo;
eu intento chamar por ti
e nom me sai o teu nome.

10
Desesperado, esgotado,
caio do meu pesadelo;
entro num sonho profundo,
nom sei se estou morto ou vivo.

11
Aparece a tua escultura
coma pele dum golfinho,
esbarrando nas minhas mans,
repousando no meu leito.

12
E aperto-te a modinho
como a uma bonequinha
frágil, de fume amarelo,
que derrete nas minhas mans.

13
Doce coma um caramelo
fundindo-te no meu corpo,
nascem duas bolboretinhas
coma alecrins amarelas.

14
Nena de luz esmeralda,
cum coraçom de carvalho
e duas almas num so corpo
voam caminho da Lua.

15
A viagem que já nom tem fim;
bolboretas de séquito,
batendo as ás ao compasso,
música de gaita e violins.

16
Cuspim minha aura ao vento
e atopei-me uma Deusa.
Sonhava que estava morto,
entom a vida é eterna !.

17
E foi meu bafejo no ar 
que atopou a ánima gémea;
fundirom-se numha aperta
os dous espirítos libres.

18
Aquela noite de Luar
voavam os dous anjinhos
polo fondo fondo do Mar,
os amantes encontrados.

🌟 


Moradelha editora




15 outubro 2020

Conto 67 : A ponte da Lua

 
Lua em Oriente




A ponte da Lua


Tenho uma ponte na Lua,
que num instante me leva
à minha estrela amarela,
deixando-me ali com ela.

Tenho uma ponte na Lua,
nim de madeira nim ferro.
A minha ponte da Lua
é dum amor verdadeiro.

Da-me um bocado na vida,
remexe-me as entranhas.
É a minha ponte que junta
o paraíso coa Terra.

A minha ponte da Lua
abre-se coa Lua nova.
Enche de flores meu peito
e acenam-lhe as bolboretas.

E as bolboretas acudem
a renovar os amores.
Fam-se sentir importantes,
ao presumir das suas cores.

Tenho uma ponte na Lua,
que é coma minha meninha,
doce coma umha pavia,
singela como pombinha. 

Tenho uma ponte na Lua,
onde ao ir colhidos da man,
entramos no paraíso
e acampamos mesmo no Sar.

Aperta-nos Rosalia
e amamo-nos sem pesares,
bicamo-nos com delírio,
fugindo das soidades.

Tenho uma ponte na Lua,
dende ali acaroo ò Mar,
dende ali sinto-me cheio
de amor e felicidade.

A vertigem do coraçom,
à minha ánima incita
a cair na ponte da Lua,
para juntar-se coa tua.

E as bolboretas do peito
fam-me voar de súpeto,
cara ali, à nossa ponte,
cara a ti, a minha amante.

E deitados na ponte os dous, 
atopados no Levante,
amencemos no paraíso 
e sonhamos co Ocidente.

A Lua tem uma ponte,
que dia e noite ela brilha,
ali caminham amores,
ali há uma maravilha.

🌟


Lua em Ocidente



Moradelha editora




16 setembro 2020

Conto 66 : Um vento do demo


Irlanda



Vento do nordés


1
Vem o vento soprando polo norte;
esse vento tam frio, tam boreal;
soprando polo polo norte, forte,
que vem enchendo de coitelos o ar.

2
Arrastra núvens de espinhos de rosas
e voa no ceo o seco tojo arnal.
Vem um vento zoando coma um vendaval
de pingentes e afiadas folhas mortas.

3
Frio e pelando, a guerra declarando.
Disposto a congelar todo o que colha;
a deixar-nos arripiados os corpos.
Vento tolo pola pel à gardunha.

4
Hei-me proteger e pór a coraça,
coas primeiras fúrias vidas do ceo.
Em quanto empecem os eidos a fungar,
terei que pór a resgardo meu peito.

5
O vento virá cravando coitelos,
aparecerá bem disposto a matar.
Há na terra um forte vento asesino,
no ceo cheia de cores de grandeza.

6
Entom eu no meu Pai refugiarei-me; 
os pechos e as cancelas reforzando,
as portas e fiestras irei pechando;
terei tino de acomodar ò gando.

7
Nom estarei coa cara descoberta,
nim poderá andar a minha alma espida.
Se me colhe o nordés, estou perdido,
pois deslembrado e parvo ficaria.

8
Nom poderia entom fazer apertas.
Seria um ser inútil, já pra sempre.
Cumha Lua nova a história deu a ser,
verei as estrelas ao quente do Lar.

9
I eche que tam só ao demo se lhe ocorre
fazer hoje a sua derradeira viagem.
Virá guiado polo vento nordés, 
quando mais bravo e adoecido brue.

10
Manhá verei a nova saída do Sol,
passado guichará-me um olho a Lua.
Hoje afoga o demo no fondo do Mar,
levado polo vento mais gelado.

11
Aos meus eidos nunca mais há de voltar
e nom estranharei as suas tentacions.
Porei fim as quarenta quarentenas
que é possível, ou nom, que em vao nom forom.

12
O meu Mar ao demo tem que traga-lo.
Há de fenecer bem frio e salgado.
Bo caralho vai levar ò atopa-lo;
morto no fondo do mar, afogado.

🌟





Moradelha editora




09 agosto 2020

Conto 64 : A loba namorada





A loba namorada do Mundo


1
A Mina parira ò Mundo,
no Curro, com trevoeira.
O seu miar coma um trono
a todo o eido espertara.

2
Aquela noite sentiu-se
por todo o val aquel parto.
O novo Mundo anuncio-se :
Quatro gatinhos num cocho.

3
Uma loba alá em Novelle,
que olhava aqueles vales,
das terras de Celanova,
os lobinhos espertaram-lhe.

4
Sentia aquelo e pensava,
que era um tigre de bengala,
ouvindo dende um outeiro
tam forte miar do Mundo.

5
Sombra da Pedra Furada 
reflexando-se na Lua; 
uma silhueta felina,
entras nuvens e a névoa.

6
De noite noreava a loba
cara a Terzas e Santomé,
sempre em pesca de mantença
pra sua cova de Novelle. 

7
O Mundo subia aos Castros
pra sentir ouvear à loba;
co amencer do pleno luar,
ò ponente contemplando.

8
Pasea a loba cheirando
as pericas do Arroio
e da majada aquel gando,
a modinho e calando.

9
Eu vou-lhe vendo as orelhas,
sabe, nom tenho medo,
sabe que tenho escopeta,
e nom, que tenho cem olhos.

10
Eu som o moucho Laroucho,
o da escopeta Lereta,
que em toda a noite nom durmo,
gardando minha fazenda.

11
A loba anda com tino,
podo-lhe cofear o lombo,
coa lizença de caçador,
e sabe que estou-na vendo.

12
Sabe que de noite eu estou
sentado no meu corredor
e vai olhando a majada,
de reolho mira pra mim.

13
Nom para de mirar pra mim,
nom pode ter um tropeço,
ou estoupido ha de ouvir,
da escopeta algúm tiro.

14
Se salta a minha majada,
ou o valado do Bande,
dela nunca mais sairá,
e atopará a sua morte.

15
Adoro esse jeito que tem,
espírito silandeiro,
peró tem que sair donda mim,
abandoar o nosso eido.

16
Nom sabe que o Mundo medrou
e agora é uma Bengala.
Nom sabe que eu podo ve-la,
dende todos os outeiros.

17
Nom sabe que eu podo voar,
que som o moucho Laroucho.
Vejo as orelhas da loba,
nom lhes tenho ningúm medo.

18
Esta-te da loba, moucho !.
Ouvea-lhe muito ò luar
e seica fala com ela,
tódalas noites de Lua.

19
Essa loba está bem claro,
que poderia contigo,
é da sua manada a lider
é a mais lista e mais forte.

20
Ja lhe cheiram as pericas,
que tem o Bande no arroio.
Come-te a fame, pobrinha !,
nom che fonde nada o choio.

21
Come-te o medo, lobinha,
vai buscar outra majada.
Eu nom te quero na minha,
assim que bule, caminha!.

22
Uma loba namorada
da sombra dum gran felino,
farta de nom comer nada,
à Pedra furada indo.

23
Foi caminho do Barreiro,
atalhando polos Feás
e o lameiro de Ramiras,
caminhando cara os Castros.

24
Seica a Pedra furada,
semelha a boca dum lobo.
Dim que por ela sairam
um dia, umas águias voando.

25
Uma pedra namorada,
chama por uma lobinha
cuma boca relumbrante,
com cheiros de amor e fume.

26
Alá vai a cautivada
do arrecendo dum gatinho,
pola música do Mundo 
e os suspiros que escuitava.

27
Deitado numha alcatifa
de hortensias azuis estava,
grande tigre de bengala,
no médio e médio dum castro.

28
Havia um novo Universo
bem dentro de aquela cova.
Uns quantos milhons de estrelas
alumeavam à loba.

29
E mil planetas de cores,
girando arredor do Mundo,
naquela noite de gala,
naquela noite de amores.

30
Um gatinho de etiqueta,
era um tigre de bengala,
deitado num trono de ouro,
esperava a sua loba.

31
E fora comezou a troar, 
sem nuvens a relampar.
No ceo festa rachada,
música nupcial no ar. 

32
As gaitas a todo fungar,
sinais dum amor celestial.
Aquel gatinho de palha,
agora um tigre dourado.

33
Numha noite convertido
em tolinho namorado.
Hoje é de mel o Luar,
dentro da Pedra furada.

34
Dous foguetes que cuspirom
lume da boca da cova,
forom polo ceo a estralar
ata o encoro de Castrelo.

35
Coma uma nuve de estrelas,
e cum jeito de castelo,
daqueles contos de fadas,
que sempre corona ve-lo.

36
E aparecérom duas águias
negras e mejestuosas,
sexuais, rante augas do Minho,
diante da ermida da Santa.

37
Cum voo senhorial partirom, 
ata o penedo mais alto,
que há no coto de Novelle,
onde aninharom pra sempre.

38
Agora ao sair a Lua,
sempre no Alto dos Castros
o Mundo colhe-a no colo,
mirando cara o ponente.

39
E a loba polo amanhecer,
dorme-a na cova do coto,
no cocho dos seus lobinhos
e retorna-a ò Oriente.

40
Nascerá um home com aas,
um anjo do ceo nascerá.
A loba mira a Oriente,
o Mundo cara Ocidente.

🌟

A Lua no Coto de Novelle



Moradelha editora




26 xullo 2020

Conto 62 : Lua de Santiago






Lua de Santiago


Farta a Lua de fazer
tantas ondinhas no mar,
de pena quere morrer,
farta de nel se mirar.

Ela quere rematar,
farta do seu reflexo;
nel molhar e nel banhar,
parar já seu bafejo.

Quere morrer crescente,
quere morrer bicando
a tua alma contente,
ir canda ti sonhando.

Quere morrer bicando
a tua alma e a minha,
tamém acaroando
espuma da beirinha,

onde deita-se espida
aquela rapacinha,
que nunca se fartava 
de mirar para ela.

Sabendo que a ela,
que a estiveram mirando,
muito lhe coronava,
ao estar alumeando.

Ai o meu Mar, meus mares !, 
a ti quem te alumeará 
agora polas noites ?,
quem contente cantará ?.

E à minha meninha
quem lhe fazerá as beiras ?,
quem lhe tirará escuma 
deitadinha a sua beira ?.

Hoje morreu a Lua,
mais a tua alma crescente,
fazerá que esta noite
renasça em Compostela.

🌟



Moradelha editora




17 maio 2020

Conto 52 : O marquinho de ouro





O marquinho de ouro
Compostela


E quem petava naquela portinha,
onda aquel valado da Moradelha,
aparecia-se-lhe um marquinho,
dumha quarta e todinho de ouro,
que cuspia uma luz sorvendo a um.
Uma boa nevoeira de luzecús
alumeando aquel nosso paradiso
escondido justo en baixo do meu lar.

No espazo desse grandíssimo esplendor
colhia a Moradelha e os Alvites,
colhia a Cortiza e ata a Fontela,
e de faiado o Universo Infinito.

Na Fontela, umha bóveda de vidro,
de muitas cores, abria-se ò ceo
coma galaxias a milhons de anos luz,
colhendo pra si dende Ribadavia
ata as terras de Celanova todas,
e brilhando a Vilanova de Curros.
Unha chiba no Coto de Novelle,
olhaba para o norte, cara a Brigantia.

O chao de auga, que ao trepa-lo era gelo
perspícuo, coma a luz da nossa infáncia,
por onde se vía o centro da Terra,
lume de forja, coma o médio do Sol.

Ali choutava uma raposa rubia,
mais brilhante que Antares e que Altair,
con muitos raposinhos arredor seu.
Enormes carros voadores de prata,
sem empates, guiados por anjinhos.
Anjos que afinavam arpas e violins.
Pegas e rolinhas emparelhadas
voavam sem sequer bater suas aas.

Campos de laranjas e de limoeiros,
en flor, arrecendo de seus azaares.
Canastros de ouro atestados de espigas.
Vacas de lume deitando-se em pendós. 

Aquitiempos falavan dumha trave,
que era de ouro, da Fontela a Novelle,
pode que a Traveso, ao pé do encoro
de Castrelo de Minho e de Sam Paio.
Flutuavam entre as augas e entre os gelos,
penedos inscrustados de diamantes.
En riba deles, anjos cantarejam
umas fermosas arias celestiais.

Falava-se tamém da Deusa Brigid,
cumhos pendentes feitos de Esmeralda,
e com duas flores da paixom na gorja,
vivas , latejantes, e coas pétalas
abrindo e pechando co seu bafejo,
e no médio dos beiços tinha outra flor,
que ao cantar manavam uns brancos jasmins,
rosas marelas i estrelas de Oriente.

Repousada no centro da lagoa,
Brigid, num campo de horténsias azuis,
coa sua longa cabeleira dourada,
caindo-lhe diante dos albos peitos.
Cum velinho verde, feito de vermes
colhidos nas faias do val do Gato
e coas beirinhas do froito do acivro,
tapando-lhe com ligeireza a face.

A Deusa tangia sua arpa de ouro,
de cordas ardentes, rojo mapoula
e onde duas cotovias danzavam, 
garulavam e assubiavam contentes.

Cavalos brancos faziam uma roda,
iam trotando arredor daquel centro
e umha égua que era tamém moi branquinha
guiava todos aqueles poldrinhos.

De pé na égua, umha mocinha espida,
filha de Santiago, da rua de Curros,
colhia cos dentes rédeas de prata,
con duas michinhas postas no seu colo
e duas meninhas colhidas no pelo,
negro aziveche, tamém en porrancho :
Santa Marinha e o Santo Adriano,
cantavam sem repouso as alalás.

En riba de Venus, a Nai do Mundo,
vestida celeste, olhava para ò Sol,
sentadinha numha casca de viera
de ouro e cum gavilám no ombreiro.

Seu pelo trigo, dentes branquísimos, 
de pérolas, irradiando umas ondas
dumhas cores de jeito impossíveis
e formando estradas onde jogaban
e noreavam espíritos santos,
que iam sementando suas humildades
como as esporas dum campo de estrelas,
naquel espectro do bambám do tempo.

Cum fio na Lua, um bota-fumeiro,
cuspindo sem parar flores de jasmim,
de camélias vermelhas e de alecrins,
por todo aquel campo cheio de estrelas,
por todo aquel campo de Compostela,
naquel Universo de Rosalia.

🌟


Moradelha editora




27 abril 2020

Conto 60 : A ponte romana





A Ponte romana


Deitado eu no céspede
da ribeira do Minho,
baixo da Ponte Velha, 
apareceu, cantando,
a Deusa Brigid.

Cantarujava
Moldau de Smetana,
recostadinha contra
um penedo
da Ponte romana.

Entom a Nai do Mundo
colheu-me no colo e
falava-me paseninho,
no ninho da orelha :

Escuita o siléncio, neno.

E namentres Brigid
alongava as suas notas,
a Nai repetia :
respeita os siléncios,
durme, meu meninho.

Ao quedar durmido,
enrolarom-me numha
pele de laranja,
feita em espiras e
os bagos nas mans.

Deitarom-me entom
num cocho de pétalas
de hortensias azuis.

A Nai do Mundo,
a Mina e Brigid, 
tres parelhas de mans
igualinhas e uma soa face,
bicavam em mim,
flores de jasmim.

Pousarom-me na auga
e aquela florcinha,
meiga de safrám,
ía flutuando em siléncio,
caminho de Vide.

Chegou a Barral,
e apareceu
ao pé de Sam Paio,
junto à Ermida
da Santa Maria,
de Castrelo de Minho.

Ata que uma mocinha,
que ponhia escola
alá em Astariz,
viu-na em Ventosela, 
e colheu-na da auga,
a carom do nariz.

Quedou namorada
daquela florcinha,
que ainda terá-a,
moi bem gardadinha,
entre as Folhas Novas
de Rosalia.

Rio do Ouro, 
meu rio Minho,
O meu neno caladinho,
meu rio do siléncio.

Pai do meu meninho,
falando-me sempre,
moi devagarcinho.

🌟





Moradelha editora




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