27 abril 2020

Conto 60 : A ponte romana





A Ponte romana


Deitado eu no céspede
da ribeira do Minho,
baixo da Ponte Velha, 
apareceu, cantando,
a Deusa Brigid.

Cantarujava
Moldau de Smetana,
recostadinha contra
um penedo
da Ponte romana.

Entom a Nai do Mundo
colheu-me no colo e
falava-me paseninho,
no ninho da orelha :

Escuita o siléncio, neno.

E namentres Brigid
alongava as suas notas,
a Nai repetia :
respeita os siléncios,
durme, meu meninho.

Ao quedar durmido,
enrolarom-me numha
pele de laranja,
feita em espiras e
os bagos nas mans.

Deitarom-me entom
num cocho de pétalas
de hortensias azuis.

A Nai do Mundo,
a Mina e Brigid, 
tres parelhas de mans
igualinhas e uma soa face,
bicavam em mim,
flores de jasmim.

Pousarom-me na auga
e aquela florcinha,
meiga de safrám,
ía flutuando em siléncio,
caminho de Vide.

Chegou a Barral,
e apareceu
ao pé de Sam Paio,
junto à Ermida
da Santa Maria,
de Castrelo de Minho.

Ata que uma mocinha,
que ponhia escola
alá em Astariz,
viu-na em Ventosela, 
e colheu-na da auga,
a carom do nariz.

Quedou namorada
daquela florcinha,
que ainda terá-a,
moi bem gardadinha,
entre as Folhas Novas
de Rosalia.

Rio do Ouro, 
meu rio Minho,
O meu neno caladinho,
meu rio do siléncio.

Pai do meu meninho,
falando-me sempre,
moi devagarcinho.

🌟





Moradelha editora




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