17 maio 2020

Conto 52 : O marquinho de ouro





O marquinho de ouro
Compostela


E quem petava naquela portinha,
onda aquel valado da Moradelha,
aparecia-se-lhe um marquinho,
dumha quarta e todinho de ouro,
que cuspia uma luz sorvendo a um.
Uma boa nevoeira de luzecús
alumeando aquel nosso paradiso
escondido justo en baixo do meu lar.

No espazo desse grandíssimo esplendor
colhia a Moradelha e os Alvites,
colhia a Cortiza e ata a Fontela,
e de faiado o Universo Infinito.

Na Fontela, umha bóveda de vidro,
de muitas cores, abria-se ò ceo
coma galaxias a milhons de anos luz,
colhendo pra si dende Ribadavia
ata as terras de Celanova todas,
e brilhando a Vilanova de Curros.
Unha chiba no Coto de Novelle,
olhaba para o norte, cara a Brigantia.

O chao de auga, que ao trepa-lo era gelo
perspícuo, coma a luz da nossa infáncia,
por onde se vía o centro da Terra,
lume de forja, coma o médio do Sol.

Ali choutava uma raposa rubia,
mais brilhante que Antares e que Altair,
con muitos raposinhos arredor seu.
Enormes carros voadores de prata,
sem empates, guiados por anjinhos.
Anjos que afinavam arpas e violins.
Pegas e rolinhas emparelhadas
voavam sem sequer bater suas aas.

Campos de laranjas e de limoeiros,
en flor, arrecendo de seus azaares.
Canastros de ouro atestados de espigas.
Vacas de lume deitando-se em pendós. 

Aquitiempos falavan dumha trave,
que era de ouro, da Fontela a Novelle,
pode que a Traveso, ao pé do encoro
de Castrelo de Minho e de Sam Paio.
Flutuavam entre as augas e entre os gelos,
penedos inscrustados de diamantes.
En riba deles, anjos cantarejam
umas fermosas arias celestiais.

Falava-se tamém da Deusa Brigid,
cumhos pendentes feitos de Esmeralda,
e com duas flores da paixom na gorja,
vivas , latejantes, e coas pétalas
abrindo e pechando co seu bafejo,
e no médio dos beiços tinha outra flor,
que ao cantar manavam uns brancos jasmins,
rosas marelas i estrelas de Oriente.

Repousada no centro da lagoa,
Brigid, num campo de horténsias azuis,
coa sua longa cabeleira dourada,
caindo-lhe diante dos albos peitos.
Cum velinho verde, feito de vermes
colhidos nas faias do val do Gato
e coas beirinhas do froito do acivro,
tapando-lhe com ligeireza a face.

A Deusa tangia sua arpa de ouro,
de cordas ardentes, rojo mapoula
e onde duas cotovias danzavam, 
garulavam e assubiavam contentes.

Cavalos brancos faziam uma roda,
iam trotando arredor daquel centro
e umha égua que era tamém moi branquinha
guiava todos aqueles poldrinhos.

De pé na égua, umha mocinha espida,
filha de Santiago, da rua de Curros,
colhia cos dentes rédeas de prata,
con duas michinhas postas no seu colo
e duas meninhas colhidas no pelo,
negro aziveche, tamém en porrancho :
Santa Marinha e o Santo Adriano,
cantavam sem repouso as alalás.

En riba de Venus, a Nai do Mundo,
vestida celeste, olhava para ò Sol,
sentadinha numha casca de viera
de ouro e cum gavilám no ombreiro.

Seu pelo trigo, dentes branquísimos, 
de pérolas, irradiando umas ondas
dumhas cores de jeito impossíveis
e formando estradas onde jogaban
e noreavam espíritos santos,
que iam sementando suas humildades
como as esporas dum campo de estrelas,
naquel espectro do bambám do tempo.

Cum fio na Lua, um bota-fumeiro,
cuspindo sem parar flores de jasmim,
de camélias vermelhas e de alecrins,
por todo aquel campo cheio de estrelas,
por todo aquel campo de Compostela,
naquel Universo de Rosalia.

🌟


Moradelha editora




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