20 outubro 2020

Conto 68 : Bolboretas





Bolboretas do além


1
Cuspo a minha aura ao vento,
libro do corpo o bafejo
e caio ò chan desmaiado,
quedo deitado num sonho.

2
Único jeito que atopa
para juntar neste Mundo 
a minha vida coa tua,
entranto habito iste corpo.

3
Que seica nom está feito
para que estea a tua beira;
corpo que vai à ventura,
cumha esperança no ceo.

4
E morrerei em desamor
e de tristura nos sonhos
que onda ti me vam levando,
em duas vidas vivindo.

5
Nom morrerei descaído,
nim hei de morrer coitado;
sonho que me aperta a Lua,
sonho que ti és a Lua.

6
De noite polos telhados
em pesca da tua feitura,
guichando polas fiestras,
buscando uma luz de guia.

7
Vejo mulheres espidas,
nigumha da tua escultura
e chamam por mim as ninfas,
rindo-se na minha cara.

8
Demos de palha com cornos,
negros de espigas de milho,
querem turrar-me as orelhas,
querem queimar-me as entranhas.

9
Eu quero falar e nom dou,
quero berrar e nom podo;
eu intento chamar por ti
e nom me sai o teu nome.

10
Desesperado, esgotado,
caio do meu pesadelo;
entro num sonho profundo,
nom sei se estou morto ou vivo.

11
Aparece a tua escultura
coma pele dum golfinho,
esbarrando nas minhas mans,
repousando no meu leito.

12
E aperto-te a modinho
como a uma bonequinha
frágil, de fume amarelo,
que derrete nas minhas mans.

13
Doce coma um caramelo
fundindo-te no meu corpo,
nascem duas bolboretinhas
coma alecrins amarelas.

14
Nena de luz esmeralda,
cum coraçom de carvalho
e duas almas num so corpo
voam caminho da Lua.

15
A viagem que já nom tem fim;
bolboretas de séquito,
batendo as ás ao compasso,
música de gaita e violins.

16
Cuspim minha aura ao vento
e atopei-me uma Deusa.
Sonhava que estava morto,
entom a vida é eterna !.

17
E foi meu bafejo no ar 
que atopou a ánima gémea;
fundirom-se numha aperta
os dous espirítos libres.

18
Aquela noite de Luar
voavam os dous anjinhos
polo fondo fondo do Mar,
os amantes encontrados.

🌟 


Moradelha editora




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