Bolboretas do além
1
Cuspo a minha aura ao vento,
libro do corpo o bafejo
e caio ò chan desmaiado,
quedo deitado num sonho.
2
Único jeito que atopa
para juntar neste Mundo
a minha vida coa tua,
entranto habito iste corpo.
3
Que seica nom está feito
para que estea a tua beira;
corpo que vai à ventura,
cumha esperança no ceo.
4
E morrerei em desamor
e de tristura nos sonhos
que onda ti me vam levando,
em duas vidas vivindo.
5
Nom morrerei descaído,
nim hei de morrer coitado;
sonho que me aperta a Lua,
sonho que ti és a Lua.
6
De noite polos telhados
em pesca da tua feitura,
guichando polas fiestras,
buscando uma luz de guia.
7
Vejo mulheres espidas,
nigumha da tua escultura
e chamam por mim as ninfas,
rindo-se na minha cara.
8
Demos de palha com cornos,
negros de espigas de milho,
querem turrar-me as orelhas,
querem queimar-me as entranhas.
9
Eu quero falar e nom dou,
quero berrar e nom podo;
eu intento chamar por ti
e nom me sai o teu nome.
10
Desesperado, esgotado,
caio do meu pesadelo;
entro num sonho profundo,
nom sei se estou morto ou vivo.
11
Aparece a tua escultura
coma pele dum golfinho,
esbarrando nas minhas mans,
repousando no meu leito.
12
E aperto-te a modinho
como a uma bonequinha
frágil, de fume amarelo,
que derrete nas minhas mans.
13
Doce coma um caramelo
fundindo-te no meu corpo,
nascem duas bolboretinhas
coma alecrins amarelas.
14
Nena de luz esmeralda,
cum coraçom de carvalho
e duas almas num so corpo
voam caminho da Lua.
15
A viagem que já nom tem fim;
bolboretas de séquito,
batendo as ás ao compasso,
música de gaita e violins.
16
Cuspim minha aura ao vento
e atopei-me uma Deusa.
Sonhava que estava morto,
entom a vida é eterna !.
17
E foi meu bafejo no ar
que atopou a ánima gémea;
fundirom-se numha aperta
os dous espirítos libres.
18
Aquela noite de Luar
voavam os dous anjinhos
polo fondo fondo do Mar,
os amantes encontrados.
🌟
Moradelha editora
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