29 outubro 2020

Conto 70 : Verbas no vento





 Verbas no vento


1
Ao fim hoje falou o vento :
dixo-me que há uma mulher,
fermosa coma ningunha,
na cima duma montanya.

2
E quando el ali sopra,
penteando-lhe os cabelos,
ela por mim pergunta,
sentadinha num penedo.

3
Ela en riba daquel monte,
bafejando a natureza,
em pesca da sua pureza,
vai escapando-lhe à morte.

4
Vejo que mira pra Lua,
quando lhe sopro na noite,
e di-me ò ninho da orelha,
que o seu amor tamém olha.

5
Quando a acaroo pola manhá,
olhando o amencer, di-me, 
que vé uns olhinhos ali,
tam madrugueiros como ela.

6
Entom contestei-lhe ao vento :
Sopra com muita doçura,
que é uma rainha de Oriente,
é uma Deusa do Olimpo.

7
Há de presentar-se um dia
a cavalinho teu, vento,
dende moi alto no ceo,
ensinando maravilhas.

8
Ali no monte há uma estrela,
que veu habitar na Terra.
Ali há uma Deusa, vento,
fermosa coma um suspiro.

9
Bicará-se o Sol coa Lua,
cum duplo arco da velha
entro Oriente e Ocidente.
E verá-se uma águia reial.

10
Soprará-lhe o vento ò ouvido,
dando-lhe um bico nas aás,
dizindo-lhe que a leve,
ali onde o dia amence.

11
Que a leve onde sai o Sol,
quem lhe dá a vida e a cor,
que quere aperta-lo forte.
Por favor, levade-me alá.

12
Entom pedim-lhe ao vento :
Di-lhe à mulher fermosa,
que quero-a de bem certo
e nela penso dia e noite.

13
Bica à minha rainha,
da-lhe um bico docemente,
aperta à Deusa de Oriente,
acaroa à minha soidá.

14
Vento, soproche um suspiro,
pra que lho leves a ela.
Leva-lho polo fevereiro,
co arrecendo das mimosas.

🌟


Moradelha editora




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