Magosto do Sam Martinho
1
Eu ía de cara à ermida
caminhando polo souto,
e dum castinheiro caiu,
entro os meus pés um ouriço.
2
Coa cajata afastei-no,
ía trepa-lo pra abri-lo
e agarrarom-me do pé,
abriu-se só o ouriço.
3
E da castanha do médio,
apareceu uma Virgem,
toda vestida de verde,
coa cabeleira de ouro.
4
E às castanyas das beiras,
sairom-lhe dous meninhos,
os dous vestidos de branco,
dum inmaculado linho.
5
Os nenos coma anjinhos,
voavam arredor de Ela,
bicando-lhe cada pouco
as suas radiantes meixelas.
6
Quedei parmado namentres
mirava pra mim a Santa,
dando-me um bico nos beiços,
desaparecerom os trés.
7
Quando saim ao caminho,
atopei pousado no chan
um queipinho de vímbio,
cheio de castanhas gordotas.
8
E à beira do canastrinho,
uma saqueta de esparto,
acogulada de frouma,
com fio de linho atadinha.
9
Eu mirei en todo arredor,
ali nom havia ninguém.
Num eido de nevoeria,
cheirando o ar à lareira.
10
Chiscava um olho o inverno,
caem as noces das nogueiras,
quedam espidas as vinhas,
cum tapa-rabo vermelho.
11
Churem ainda as carvalhas
e chora a natureza,
pondo-se já em letargo,
chiscava os olhos o inverno.
12
Poucos rapaces na aira.
O gando volve às cortes.
Ouveam lobos coa fame
nos outeiros da lonjura.
13
Cheia de teazas a adega,
cheira-se o vinho novo,
onde inverna um micro-mundo,
madura o néctar da vinha.
14
Corona andar à conversa
nas tardinhas de nevoeria;
rondam os mozos e as mozas,
coas canadiensas já postas.
15
Colhim os presentes nas mans
e levei-nos para casa.
Habilitamos a aira
para fazer o magosto.
16
Pegamos-lhe lume à frouma,
arredor cumhas cabacas.
Todos a cara pintamos
com garabatos queimados.
17
Os nenos pintando o demo,
quecendo arredor do lume.
Era uma noitinha fresca,
pingava em nós uma nuvem.
18
De súpeto trés castanhas
estralarom entre a frouma,
saindo coma foguetes,
disparando-se às nuvens.
19
E vimos por riba de nós
a trés pombinhas moi brancas,
levando cada uma delas
uma castanya no bico.
20
Marcharom batendo suas aas
cara o ceo direitinhas,
dasaparecendo no ar,
na noite de nevoeira.
21
Encheu-se o aire de flores,
no chan pétalas de cores,
de rosas e de camélias
e de azuis horténsias.
22
Coa alegria do milagre
aparecerom as gaitas,
bailavam-se muinheiras,
e bebia-se vinho novo.
23
Na noite de Sam Martinho,
nas Airas de Santo Tomé,
muitas castanhas e vinho,
chamavam já polo inverno.
🌟
Moradelha editora
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