13 novembro 2020

Conto 71 : Magosto do Sam Martinho






Magosto do Sam Martinho


1
Eu ía de cara à ermida
caminhando polo souto,
e dum castinheiro caiu,
entro os meus pés um ouriço.

2
Coa cajata afastei-no,
ía trepa-lo pra abri-lo
e agarrarom-me do pé,
abriu-se só o ouriço.

3
E da castanha do médio,
apareceu uma Virgem,
toda vestida de verde, 
coa cabeleira de ouro.

4
E às castanyas das beiras,
sairom-lhe dous meninhos,
os dous vestidos de branco,
dum inmaculado linho.

5
Os nenos coma anjinhos,
voavam arredor de Ela,
bicando-lhe cada pouco
as suas radiantes meixelas.

6
Quedei parmado namentres
mirava pra mim a Santa,
dando-me um bico nos beiços,
desaparecerom os trés.

7
Quando saim ao caminho,
atopei pousado no chan
um queipinho de vímbio,
cheio de castanhas gordotas.

8
E à beira do canastrinho,
uma saqueta de esparto,
acogulada de frouma,
com fio de linho atadinha.

9
Eu mirei en todo arredor,
ali nom havia ninguém.
Num eido de nevoeria,
cheirando o ar à lareira.

10
Chiscava um olho o inverno,
caem as noces das nogueiras,
quedam espidas as vinhas,
cum tapa-rabo vermelho.

11
Churem ainda as carvalhas
e chora a natureza,
pondo-se já em letargo,
chiscava os olhos o inverno.

12
Poucos rapaces na aira.
O gando volve às cortes.
Ouveam lobos coa fame
nos outeiros da lonjura.

13
Cheia de teazas a adega,
cheira-se o vinho novo,
onde inverna um micro-mundo,
madura o néctar da vinha.

14
Corona andar à conversa
nas tardinhas de nevoeria;
rondam os mozos e as mozas,
coas canadiensas já postas.

15
Colhim os presentes nas mans
e levei-nos para casa.
Habilitamos a aira
para fazer o magosto.

16
Pegamos-lhe lume à frouma,
arredor cumhas cabacas.
Todos a cara pintamos
com garabatos queimados.

17
Os nenos pintando o demo,
quecendo arredor do lume.
Era uma noitinha fresca,
pingava em nós uma nuvem.

18
De súpeto trés castanhas
estralarom entre a frouma,
saindo coma foguetes,
disparando-se às nuvens.

19 
E vimos por riba de nós
a trés pombinhas moi brancas,
levando cada uma delas
uma castanya no bico.

20
Marcharom batendo suas aas 
cara o ceo direitinhas,
dasaparecendo no ar,
na noite de nevoeira.

21
Encheu-se o aire de flores,
no chan pétalas de cores,
de rosas e de camélias
e de azuis horténsias.

22
Coa alegria do milagre
aparecerom as gaitas,
bailavam-se muinheiras,
e bebia-se vinho novo.

23
Na noite de Sam Martinho,
nas Airas de Santo Tomé,
muitas castanhas e vinho,
chamavam já polo inverno.

🌟



Moradelha editora




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