20 febreiro 2022

Conto 79 : Carrolinho

 



Carrolinho
Um pito voador 


1
O Carrolinho era um pito
que rabeava por voar
e vivia moi afligido,
ao nom saber suas ás usar.

2
E via cada dia de Deus,
que vinham onda el a jantar
umas pegas e uns pardaus,
que vinham rolas e pombas.

3
Vinham parelhas de merlas,
que agardunhavam na terra 
e outros muitos paxaros
a garular coas galinhas.

4
Alimentavam-se do seu,
no pátio do seu poleiro;
comiam-lhe os seus carrolos
e as suas verzas comiam-lhe.

5
Que tenhem diferente a mim, pensava, 
que podiam viajar polo ar, ser libres.
El batia suas ás e nom dava voado.

6
Entom pujo-se a fazer ginástica
i esvoaçando as ás a cotio e forte,
intentava levantar o seu voo.

7
Vira como umas gaivotas
estavam suspensas no ar
e sem sequer aletejar;
nom moviam nim um chisco as ás.

8
Viu uma águia a muita altura
surcar o aire como um peixe
que polo mar navegara,
numa corrente marinha.

9
E ao ver um galo de bosque,
co seu plumagem brilhante,
do urogalo namorou-se
e já nom parou de esvoaçar.

10 
Quedou parmado cuns patos viajando,
que iam de lagoa em lagoa jogando,
coa sua récua de pequenos nadando.

11
Via transumáncia entras nuvens voando,
uma cheia de espíritos viajeiros.
Aves em formaçom surcando os ceos.

12
Andurinhas, com só meses de vida,
fazendo quilómetros sem descanso,
cara a sua residéncia de inverno. 

13
Uma manhá atopou um vento a favor,
notou aguantar-se suspenso no ar;
um dia dum forte vento, um milagre !.

14
Saiu zurnido polo aire,
sua gram oportunidade
acabava-lhe de chegar,
a sua ocasiom esperada.

15
Agora quando queria voar
esperava um dia de vento,
zapateava-se de riba,
do mais alto do poleiro.

16
E sonhava já o pitinho
noutros Mundos, noutras aves,
conhecer todos os mares,
atravessar o oceano.

17
Flutuar sobre as imensas pradeiras,
onde se sementa o milho a fartura.
Era fabuloso, o poder voar !.

18
Visitou aos seus parentes e irmaos.
Conheceu aves de todo clas, graos,
umas sementes, que el nunca provara.

19
Entranto os pitos durmiam,
o Carrolinho choutava
no pátio do galinheiro,
tam contente coma um cuco.

20
Batia sem parar as ás,
cada dia ía mais alto,
pois com tantos exercícios,
elas forom-lhe medrando.

21
Non queria ir só polo Mundo adiante.
- É um sonho ter um espírito libre,
mais antolha-se-me moi vulnerável.

22
Olhava uma bandada de estorninhos
fazendo elegantes debuxos no ar.
Quem poidera ter seu ingenho, pensou.

23
No buche uma pomba coa sua manteza,
coma quem vai de excursom polos jardins,
voar levando consigo a merenda.

24
Belo seria que um cisne
poidera voar, pensava,
cuma avestruz estivera,
os dous no ar à jogueira.

25
- Os flamingos muito mais grandes ca mim,
voam moi alto e bem juntos no ceo;
fam longas distancias entras marismas.

26
- Eu, algo mais pequerrecho qum pato
e muito mais pequeno qum flamingo, 
como nom vou dar voado !.

27
Viu-se ilusionado e forte
e o Carrolinho volveu-se,
dando volta cara o seu lar,
estranhou jogar coas pitas.

28
Tornava coa gram ilusom
de ensinar a voar tamém,
a outros muitos pitinhos
que coma el poideram viajar.

29
Pousou-se pola manhá num pinheiro
junto a um rouxinol numa ponla a piar
e piavanche chorando coa pena.

30
Viam dende o alto outros pitos,
galos, galinhas e capós,
pechados numas gaiolas,
muito apertados nas granjas.

31
Sendo mantenzas dos homes,
as multitudes de aves,
e de pór ovos escravas; 
de mala rábia chorava.

32
Os seus irmaos nom sabiam
que outra vida existia,
fora de nascer escravo,
para sustento dos outros.

33
Coitado o pobrinho ao saber,
nom teram ocasiom sequer,
de poder ser um ser libre,
nim tam só dous dias ou trés.

34
- Meus irmaos nascem escravos,
números duma gaiola,
mortos de laboratório,
para que outros nom morram.

35
Uma majestuosa pita de monte,
que já tinha visto voar ao pequeno,
apareceu no poleiro uma noite
e a levantar o seu voo animou-no.

36
Esperarom um bom golpe de vento
e a aninhar coas cigonhas marcharom.
E já nom volveu mais ao galinheiro
o Carrolinho, um pitinho voador.

🌟



Moradelha editora




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