05 xullo 2022

Conto 84 : Espantalho




 

Espantalho


Um paxarinho pousou-se na ponla
duma cerdeira, atacada de froito
e de súpeto espantou-se
quando viu ao espantalho.

Caiu co sobressalto ao chan
e com tam mala fortuna
que estava tam cheio de lama,
que semelhava um lameiro,
de tanto como chovera.

Entom nom dava levantado o voo
por muito esforço que fazia.

Ao vé-lo o espantalho tam apurado,
quijo achegar-lhe a sua ajuda.

- Eu quero-te ajudar, paxarinho,
mas estou aqui imóvel.

- Que podo fazer por ti ?

-- Raios, nom sei !.
A o melhor podes soprar
para expulsar-me a lama
e secar-me as ás.

- Eu nunca figem tal cousa !,
mas podo provar.
Tampouco sabia que podia falar
e velaí tés.

- Dou soprado algo,
mas é impossível
que o aire chegue onda ti.

- Poderias subir por riba de mim
e secar-te nestes farricalhos
que me pugérom de vestido
e dipois deitas-te ao sol
nas ás do meu sombreiro de palha,
até que che enxugue a lama.

Trepou o paxarinho polo espantalho arriba,
espuxando-se pola roupa velha
e deitou-se ao sol no enxebre chapéu.

Logo que sentiu que podia mover as ás
pudo volver a pousar-se na cerdeira.

Come as cereijas !, dizia-lhe o espantalho.

- Total, enriba de todo
os donos nom dam chegado
e as que colhem de baixo
a mitade tiram com elas
porque seica tenhem habitantes,
que por outra banda,
a ti seguro que che prestam bem.

- Come paxarinho e marcha cos teus.
O que vés relumbrar dando voltas,
nom lhe tenhas medo ningum.
É uma caralhada,
que quigerom-na encolgar
para espantar-vós tamém.

Quando se fartou de comer o paxarinho, 
pousou-se no nariz do espantalho.
Entom iste soprou-lhe bem forte
e botou-se a voar feliz e contente.

🌟



Moradelha editora




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