Espantalho
Um paxarinho pousou-se na ponla
duma cerdeira, atacada de froito
e de súpeto espantou-se
quando viu ao espantalho.
Caiu co sobressalto ao chan
e com tam mala fortuna
que estava tam cheio de lama,
que semelhava um lameiro,
de tanto como chovera.
Entom nom dava levantado o voo
por muito esforço que fazia.
Ao vé-lo o espantalho tam apurado,
quijo achegar-lhe a sua ajuda.
- Eu quero-te ajudar, paxarinho,
mas estou aqui imóvel.
- Que podo fazer por ti ?
-- Raios, nom sei !.
A o melhor podes soprar
para expulsar-me a lama
e secar-me as ás.
- Eu nunca figem tal cousa !,
mas podo provar.
Tampouco sabia que podia falar
e velaí tés.
- Dou soprado algo,
mas é impossível
que o aire chegue onda ti.
- Poderias subir por riba de mim
e secar-te nestes farricalhos
que me pugérom de vestido
e dipois deitas-te ao sol
nas ás do meu sombreiro de palha,
até que che enxugue a lama.
Trepou o paxarinho polo espantalho arriba,
espuxando-se pola roupa velha
e deitou-se ao sol no enxebre chapéu.
Logo que sentiu que podia mover as ás
pudo volver a pousar-se na cerdeira.
Come as cereijas !, dizia-lhe o espantalho.
- Total, enriba de todo
os donos nom dam chegado
e as que colhem de baixo
a mitade tiram com elas
porque seica tenhem habitantes,
que por outra banda,
a ti seguro que che prestam bem.
- Come paxarinho e marcha cos teus.
O que vés relumbrar dando voltas,
nom lhe tenhas medo ningum.
É uma caralhada,
que quigerom-na encolgar
para espantar-vós tamém.
Quando se fartou de comer o paxarinho,
pousou-se no nariz do espantalho.
Entom iste soprou-lhe bem forte
e botou-se a voar feliz e contente.
🌟
Moradelha editora
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