10 setembro 2023

Conto 87 : O corvo da Moradelha

 



O corvo da Moradelha



Quando polos anos 60 triunfavam os Beatles :

Em Santomé, polas tardinhas, logo da merenda,
os nenos botavan uma partida ao chinchom
na cocinha de Justa i Eladio Regente
e dipois saían coas vacas pro monte.

Namentres as vacas paciam, no alto da Moradelha,
os nenos jogavam ao canival (bilharda), cum pau longo
e outro pequeno.

Aquel dia juntaram-se Pepe Bande, Balbino Durma,
Pepe Garrido e mais Xoan Brasileiro,
com candansua junta de vacas.

De súpeto, no turno de garabato de Pepe Garrido,
apareceu um corvo na cima dum pinheiro.

Garrido agarrou uma pedra e tirou-lhe um cantaço,
para espanta-lo e faze-lo fugir, coa mala fortuna
que deu-lhe bem dado e ao chan foi cair malferido.

Nom dava voado e houvo entom que colhe-lo.

- Que comem os corvos ?, perguntava Garrido.

Alojou-no no canastro que tinha no enxido,
ao pé da Moradelha, que estava entom livre, sem milho.

Um Garrido penitente dando de comer a um corvo
umas poucas semanas, até que o corvo sanou
e deixou-no escapar.





Moradelha editora




13 abril 2023

Conto 86 : As Remeladas

 


As Remeladas


Otilia rilhava uma mazán,
sentadinha num valado
dos campos das Remeladas,
entanto pacia o gando.

Naqueles tam verdes prados,
descansava mirando ao ceo,
com música dos regatos
e o canto dos paxaros.

Entre Otilia e Angelina
encherom um carro de erva,
no fondo das Remeladas,
namentres o gando pacia.

Dipois de rilhar sua mazán,
calzou Otilia a fouce na man
e segou um campinho de erva,
mentres paciam as vacas.

Angelina calcou-na no carro
e atou-na cum bo sedenho,
nom fora ò subir a costa,
perder-se parte da carga.

Quanto presta uma merenda
no verde das Remeladas.
Como corona ir a ela,
quando é tempo de rabaças.

Aqueles campinhos frescos,
polas tardinhas do verán,
esses campinhos de conto,
por onde pasear-se co can.

Esses caminhos tam verdes
à sombra das carvalheiras,
sonhando com mil amores,
e pensando sempre no bem.

Ao seram às Remeladas
corona ir segar erva,
sentir o seu arrecendo,
entanto que pace o gando.




Moradelha editora




14 outubro 2022

Conto 37B : Névoa

 




A cadelinha do Chimpa
Névoa


O can que comia as uvas resulta,
que era filho da cadela do Chimpacarros.

A garda civil, nas Airas, dixo :

- Traede-me essa tal Cadela !.

    - Vi-na no outeiro do Muiño co Luqui Monea,
      dixo Petolo.

O Antonio Petolo, a cavalo da burra da tia Angelina,
marchou cara alá.

Atopou à cadela, colheu-na no colo e montou-na na burra.
Volveu cara as Airas e entregou a cadela òs gardas.

- E logo nom traedes a dona do can !, dixo um garda.

    - É esta cadela, dixo Petolo.

- Valga-me o demo !.
  Bem, levamo-la connosco, detida !.

Os gardas partirom a cavalo coa cadelinha entras pernas.

Ao chegar a O Picouto,
quando o sargento viu a cadela, espetou :

- Vos sodes parvos ou que !.
   Traede-me ao dono do can e levade esta cadela, cona !

🌟



Moradelha editora




08 agosto 2022

Conto 85 : Xan dos tojos

 


Xan dos tojos


Xan, picara-se cum tojo num olho,
caindo um dia no pátio da corte
e ainda pra mais caira embostado.

Aquela ferida quedara infetada.
Dende entom ao falar chiscávache o olho
e quando ía às mozas era um perigo.

Casou com Casemira, que seica vé pouco
e tiverom dous filhos, neno e nena,
os dous bem feitinhos, Servando e Manoela.

O rapaz foi estudar a Alemanha
e agora é um médico oftalmólogo,
que nom cala cumha firme obsessom.
 
Quer remexer no pai, sanar-lhe o olho.
A nai já está bem como está, di ela,
nom quere ter surpresas a sua idade.

🌟



Moradelha editora




05 xullo 2022

Conto 84 : Espantalho




 

Espantalho


Um paxarinho pousou-se na ponla
duma cerdeira, atacada de froito
e de súpeto espantou-se
quando viu ao espantalho.

Caiu co sobressalto ao chan
e com tam mala fortuna
que estava tam cheio de lama,
que semelhava um lameiro,
de tanto como chovera.

Entom nom dava levantado o voo
por muito esforço que fazia.

Ao vé-lo o espantalho tam apurado,
quijo achegar-lhe a sua ajuda.

- Eu quero-te ajudar, paxarinho,
mas estou aqui imóvel.

- Que podo fazer por ti ?

-- Raios, nom sei !.
A o melhor podes soprar
para expulsar-me a lama
e secar-me as ás.

- Eu nunca figem tal cousa !,
mas podo provar.
Tampouco sabia que podia falar
e velaí tés.

- Dou soprado algo,
mas é impossível
que o aire chegue onda ti.

- Poderias subir por riba de mim
e secar-te nestes farricalhos
que me pugérom de vestido
e dipois deitas-te ao sol
nas ás do meu sombreiro de palha,
até que che enxugue a lama.

Trepou o paxarinho polo espantalho arriba,
espuxando-se pola roupa velha
e deitou-se ao sol no enxebre chapéu.

Logo que sentiu que podia mover as ás
pudo volver a pousar-se na cerdeira.

Come as cereijas !, dizia-lhe o espantalho.

- Total, enriba de todo
os donos nom dam chegado
e as que colhem de baixo
a mitade tiram com elas
porque seica tenhem habitantes,
que por outra banda,
a ti seguro que che prestam bem.

- Come paxarinho e marcha cos teus.
O que vés relumbrar dando voltas,
nom lhe tenhas medo ningum.
É uma caralhada,
que quigerom-na encolgar
para espantar-vós tamém.

Quando se fartou de comer o paxarinho, 
pousou-se no nariz do espantalho.
Entom iste soprou-lhe bem forte
e botou-no a voar feliz e contente.

🌟



Moradelha editora




01 xullo 2022

Conto 83 : Celsa

 


Celsa
a nai de Alfredo


Dera no queixo co mango da peta,
dende entom ao falar, eu nom o entendo,
fálache sempre coa boca retorta
e mira pra um co bico mirrado.

Nunca sei se no leite, quere migar,
pra dizer que si, esfarangulha os dedos,
quando nom o fai é que quere molhar,
nom sei que hei fazer com iste Alferedo !.

Nom pergunto como lhe vam as cousas
e deixo-o que faga à sua maneira,
co medo a entender duma cousa outra.

Cos pés a noventa graus caminhava,
coma se tivera dor entras pernas
ou levara um couce ali onde nom soa.

🌟



Moradelha editora





19 xuño 2022

Conto 82 : Xan das Airas

 


Xan das Airas
Sonhos dum tolinho



Sintiu-se cum mal de olho,
de gato preto gardunho,
cum desafío de guerra.
Uma manhá fria de outono
escondendo-se já a Lua
alá no cabo do Mundo.

Petava nas portas um vento
enmeigado e forte de nordés,
avecinhava-se um cru inverno
entras fopas secas e os cardés.

O único agarimo quente
foram-lhe uns brazos penitentes.
Marchava cum escuro adeus,
seu derradeiro estertor,
que nom fora sequer amargo,
senom doce mel dumos beiços.

Vestia pesado pantalom
de pana escura remendada
e jaqueta canadensa
folrada e tamém pesada.
Encolgava do lábio grosso
o seu cigarro apegado.

Ainda que gastava bo lombo,
já lhe pesavam os ossos,
però mais pesava-lhe a palha
naquela sua burra de carga.

Sabiam-lhe muito os canhotos
das silvas verdes, parados. 
Rilhava uma mazán azeda
sentado num velho valado,
duma medrada tojeira, 
coma quem limpava os dentes.

Ouveava a sua cadela
sem que ninguém a mancara.
Chorava-lhe co seu ouveo
à sua fame e à soidade
e a Lua mirava pra ela,
alumeando-lhe os ossos famentos.

Um espelhismo parece
onde um caminho se torce.
Deitou-se Xan, moi bébedo
por riba dumas carqueixas
e foi-no espertar uma lebre
que as suas crianças coidava.

Paroxismo inexplicável
que volveu-no médio parvo
e médio tolo deixou-no,
por nom dizer tolo inteiro.
Sempre penteava ao seu gato
coma se penteara a uma Deusa.

E falava com el, cantando :

"Na cima da tua alma há
uma coroa dourada, imaterial,
milagreira e luminosa
que ao baterem as tuas aas
i esvoaçando-se no ar,
essa coroa envolve-te 
co seu longo colar celestial".

"A minha rede nerviosa
estoupa coa tua fermosura
num tremoso e grande éxtase,
que fai-me sentir divino".

🌟



Moradelha editora





15 xuño 2022

Conto 81 : Paxarinho

 



Paxarinho


Por uma carreira estreita,
duma cidade ampla,
um hominho pequeno
caminha solitário.

Com moi grande coraçom,
caminhando devagar
cum paxarinho na man,
detem-se e da-lhe um bico.

Numha grande alameda,
duma pequena vila,
uma mocinha chora
a perda dum paxaro.

Co coraçom encolhido
e cum retrato na man,
caminha ela a modinho
e detem-se pra dar-lhe um bico.

🌟



Moradelha editora




12 maio 2022

Conto 80 : Lua em flor

 



Lua em flor
véspera das Letras


1
Pola véspera das Letras
chorará contente a Lua.
Com carinha de vergonça
há celebrar esse dia.

2
Pois jeitosa é a nossa língua,
tam pequerrecha ela e velha,
muito vergonçosa e bela,
enxebre coma ningumha.

3
Já tolea a primavera
e hoje a Terra pentea
a prácida Lua cheia
com raios de Sol dourados.

4
Uma meninha eclipsada
co agarimo do Mundo
e polo quente do seu Sol,
na infinitude ascondida.

5
Uma minúscula rainha
na multitude de astros,
hoje polo Sol coroada
e pola Terra apertada.

6
E daram-lhe a sua bendiçom
uma cheia de arpas celestiais,
que tocaram nos coraçons
dos amantes apenados.

7
Umas letrinhas dum berce
acaroaram a sua face
enchendo de amor e flores
os seus regos, os seus mares.

8
Vinte e quatro horas no dia
o Mundo baila para vós.
Seu cobertor é teu manto
o seu som a tua alegria.

9
Uns bicos dos verdes prados
nas tuas fondas cráteras,
calores nos teus desertos
coas suas ferventes entranhas.

10
Da tua resplandor tam branca,
da tua doce palideza,
cheinha de amor i espida
renasce a vida sangrenta.

11
E fai-se noite na Lua
coas sombras da nossa Terra.
Fai-se-lhe noite i é dia
nascendo um jardim de flores.

12
Coa doce aperta do Mundo,
tapando-a co seu abrigo
ate que o seu ardente Sol
bique a ela, namorado.

13
Dará-lhe de luz bocado
à mazán no seu umbigo
i encherá-se o ar de estrofes
que tam só os anjos entendem.

14
Sanarám os ventres todos
dos que esteam afligidos,
sentiram-se toda a noite
os cantares nas adegas.

15
Faram milagres as meigas,
de geonlhos nos altares
parindo velhas poesias,
entre cantos de paxaros.

16
Contando estrelas fugazes,
entranto cantem os grilos,
na noite de pleno Luar,
sentado no meu corredor,

17
estarei lendo Cantares
e olhando ao firmamento,
buscarei-te entre os pulsares,
polo nosso ceo infinito.

🌟



Dezasete de Maio de 2022
Letras galegas



Moradelha editora




20 febreiro 2022

Conto 79 : Carrolinho

 



Carrolinho
Um pito voador 


1
O Carrolinho era um pito
que rabeava por voar
e vivia moi afligido,
ao nom saber suas ás usar.

2
E via cada dia de Deus,
que vinham onda el a jantar
umas pegas e uns pardaus,
que vinham rolas e pombas.

3
Vinham parelhas de merlas,
que agardunhavam na terra 
e outros muitos paxaros
a garular coas galinhas.

4
Alimentavam-se do seu,
no pátio do seu poleiro;
comiam-lhe os seus carrolos
e as suas verzas comiam-lhe.

5
Que tenhem diferente a mim, pensava, 
que podiam viajar polo ar, ser libres.
El batia suas ás e nom dava voado.

6
Entom pujo-se a fazer ginástica
i esvoaçando as ás a cotio e forte,
intentava levantar o seu voo.

7
Vira como umas gaivotas
estavam suspensas no ar
e sem sequer aletejar;
nom moviam nim um chisco as ás.

8
Viu uma águia a muita altura
surcar o aire como um peixe
que polo mar navegara,
numa corrente marinha.

9
E ao ver um galo de bosque,
co seu plumagem brilhante,
do urogalo namorou-se
e já nom parou de esvoaçar.

10 
Quedou parmado cuns patos viajando,
que iam de lagoa em lagoa jogando,
coa sua récua de pequenos nadando.

11
Via transumáncia entras nuvens voando,
uma cheia de espíritos viajeiros.
Aves em formaçom surcando os ceos.

12
Andurinhas, com só meses de vida,
fazendo quilómetros sem descanso,
cara a sua residéncia de inverno. 

13
Uma manhá atopou um vento a favor,
notou aguantar-se suspenso no ar;
um dia dum forte vento, um milagre !.

14
Saiu zurnido polo aire,
sua gram oportunidade
acabava-lhe de chegar,
a sua ocasiom esperada.

15
Agora quando queria voar
esperava um dia de vento,
zapateava-se de riba,
do mais alto do poleiro.

16
E sonhava já o pitinho
noutros Mundos, noutras aves,
conhecer todos os mares,
atravessar o oceano.

17
Flutuar sobre as imensas pradeiras,
onde se sementa o milho a fartura.
Era fabuloso, o poder voar !.

18
Visitou aos seus parentes e irmaos.
Conheceu aves de todo clas, graos,
umas sementes, que el nunca provara.

19
Entranto os pitos durmiam,
o Carrolinho choutava
no pátio do galinheiro,
tam contente coma um cuco.

20
Batia sem parar as ás,
cada dia ía mais alto,
pois com tantos exercícios,
elas forom-lhe medrando.

21
Non queria ir só polo Mundo adiante.
- É um sonho ter um espírito libre,
mais antolha-se-me moi vulnerável.

22
Olhava uma bandada de estorninhos
fazendo elegantes debuxos no ar.
Quem poidera ter seu ingenho, pensou.

23
No buche uma pomba coa sua manteza,
coma quem vai de excursom polos jardins,
voar levando consigo a merenda.

24
Belo seria que um cisne
poidera voar, pensava,
cuma avestruz estivera,
os dous no ar à jogueira.

25
- Os flamingos muito mais grandes ca mim,
voam moi alto e bem juntos no ceo;
fam longas distancias entras marismas.

26
- Eu, algo mais pequerrecho qum pato
e muito mais pequeno qum flamingo, 
como nom vou dar voado !.

27
Viu-se ilusionado e forte
e o Carrolinho volveu-se,
dando volta cara o seu lar,
estranhou jogar coas pitas.

28
Tornava coa gram ilusom
de ensinar a voar tamém,
a outros muitos pitinhos
que coma el poideram viajar.

29
Pousou-se pola manhá num pinheiro
junto a um rouxinol numa ponla a piar
e piavanche chorando coa pena.

30
Viam dende o alto outros pitos,
galos, galinhas e capós,
pechados numas gaiolas,
muito apertados nas granjas.

31
Sendo mantenzas dos homes,
as multitudes de aves,
e de pór ovos escravas; 
de mala rábia chorava.

32
Os seus irmaos nom sabiam
que outra vida existia,
fora de nascer escravo,
para sustento dos outros.

33
Coitado o pobrinho ao saber,
nom teram ocasiom sequer,
de poder ser um ser libre,
nim tam só dous dias ou trés.

34
- Meus irmaos nascem escravos,
números duma gaiola,
mortos de laboratório,
para que outros nom morram.

35
Uma majestuosa pita de monte,
que já tinha visto voar ao pequeno,
apareceu no poleiro uma noite
e a levantar o seu voo animou-no.

36
Esperarom um bom golpe de vento
e a aninhar coas cigonhas marcharom.
E já nom volveu mais ao galinheiro
o Carrolinho, um pitinho voador.

🌟



Moradelha editora




31 outubro 2021

Conto 78 : Morte primeira

 




Morte primeira


Dorme o Mundo,
na sua primeira morte,
num siléncio,
de tempo indefinido.

Espera um mensageiro
que lhe bote a auga fervente
ou que de súpeto o despertem
raios de Sol ardente.

Anda de viagem o Mundo
por um tempo indefinido.
Sem parar de dar voltas,
ainda que morto e durmido.

A sua primeira vida,
numha letargia quedou;
o seu primeiro inverno morto,
pode que tamém primavera.

As suas entranhas diram
quando há de cuspir a lava,
que o retorne a outra vida
e o renasça com força.

Seu ventre rugirá de novo,
qual limpas e brihantes folhas,
de carvalho das Maravilhas,
anunciando a sua nova vida.

Latente espírito de Samaim,
nos sete coraçons vivindo,
que habitaram as sete vidas,
no seu sonho de amores mil.

O gatinho Mundo sonha, 
por um tempo indefinido,
entranto lhe nascem as ás,
nas suas costas ardendo.

🌟



Moradelha editora




12 outubro 2021

Conto 77 : Dorme-vela

 



Dorme-vela


Nom vaia ser o demo,
que namentres que durmo,
apareça a ladroa,
que me rouba os sonhos.

E que encontre-me espido,
indefenso e parmado
e sem força nim ánsia
de enfrontar-me com ela.

No seja o demo,
dipois de toda a vida,
gardando o tesouro herdado,
que m'o roubem durmindo.

Cum suspiro perde-lo,
cum feitiço num sonho,
cum bico envelenado,
cuma aperta de Judas.

🌟



Moradelha editora




11 setembro 2021

Conto 76 : Mundo





Mundo


O ter a voz aguda
nom che dá doçura,
nim um corpo escultural
a fermosura.
Dar uma esmola
nom te fai boa persoa.

Neste Mundo
ninguém é bo,
nim é guapo,
nem é doce.


Ir espido
nom te fai ecológico.
O ter cartos
nom te fai rico.
Fazer regalos
nom che dá generosidade.

Neste Mundo
ninguém é generoso,
nim é rico,
nem natural é.


A juventude
nom te fai inmortal;
nim muita força,
invencível;
nem estar triste,
fai-te infeliz.

Neste Mundo
ninguém é sempre feliz,
nim é moi forte,
nim lhe escapa à morte.


E por sonhar
nom te fas tolo;
nim nom ser tolo
é ter cordura;
nim por amar
és amado.

Neste Mundo
quase todo é artifício,
é egoísmo,
é todo pobre.


Se o porco voara,
porca ave seria.
Quanto estranho
o meu Mundo !.
Quanto estranho
ao mimo podre !.

🌟



Moradelha editora
 



10 abril 2021

Conto 75 : Morreu o Mundo




 

Morreu o Mundo


1
Hoje morreu o Mundo.
O meu gatinho alá vai.
Eu marcho de viagem
ao planeta do rio Sar.

2
Fugindo da soberba
e da manipulaçom,
nom quero mais enganos,
vou en busca da Soidá.

3
Quigem compartir nave,
conhecer gente nova,
que pensei me buscava
e resulta que escapa.

4
Estarei de viagem,
para qualquer comentario,
sabedes o enderezo,
pois nom tem perda algumha.

5
Quando volva já os lerei,
ainda que duas vidas,
já enteiras pasaram,
ao retornar os lerei.

6
Hoje morreu-me o gato,
a partires de agora,
nom estarei para ninguém,
pois quedei sem a vida.

7
A melhor companhia
marchou-me de súpeto.
Estou desorientado,
co espírito orfo.

8
Já nom tenho onde mirar,
nim cousa algunha quero.
Já nom quero adiantar-me
aos acontecementos.

9
Nem podo ser o mesmo.
Eu nom som ninguém sem el.
Marchou a minha vida,
minhas arelas com el.

10
Adeus às esperanças,
pois perdim minha guia,
nom me dou orientado,
marcharei de viagem.

11
Colherei o caminho
da longa soidade,
apertarei seu espírito,
so co meu pensamento.

12
Falarei-lhe nos sonhos,
para que el me desperte
uns novos sentimentos
e a ánsia de viver.

13
Aqui sem el nom tenho
razom nigunha de ser.
Voarei polo espaço,
apertarei sua ánima.

14
Será uma longa viagem
ata que um dia de novo,
o seu espírito puro
me dea uma nova sinal.

15
Inequívoco aceno,
petando-me na alma,
para que poida regresar,
nova vida, novo Lar.

16
Pois neste falso mundo
compria sua companhia,
para sentir e tolerar,
discernir i esquivar.

17
O mesmo que Abraam,
el nom chegaria a entrar
na terra prometida,
Brigantia nom olharei.

18
E nunca verei chegar
à Deusa de Breogám,
pois tenho que abandoar 
sem rémedio iste barco.

19
E fugir longe agora,
do ódio e da soberba.
Já nom tenho inspiraçom
abandou-me o Mundo.

20
Eu ficarei sonhando
no meu planeta do Sar,
para poder-me inspirar
mirando a Rosalia.

🌟



Moradelha editora




08 abril 2021

Conto 74 : Luz viva




Luz viva


Polos pensamentos passeias a alma,
coa aura girando ò azul, descarnada,
um esquelete de fume, invisível,
um espetro de bonequinha do além.

Vejo o teu magnífico aspeto de flor,
com cores radiantes na anatomia.
Luz viva dum coronário latejar,
num divino coraçom imaterial.

Aperto teu espírito co pensamento
e bico os teus beiços co meu alento.
Ingrávida matéria, imám de ánimas,
viajeira polo Universo, Nai de nós.

Como uma choiva de luz, cheia de cores,
banhas a quem te chame e te aperte,
gloriosa, imperial e dominadora,
a tua iluminaçom nos regalas. 

Em trevoadas de altíssimo voltagem,
jogas coma se as tuas entranhas fosem,
como se foram os teus próprios filhos,
que bailam contigo onde ti apareces. 

Deusa da luz viva, aire e éter,
a mesma luz que habita o paraíso,
quenta o seu lume as errantes ánimas
e alumea-nos com sabiduria.

Oxigena coraçons abafados,
pom brétemas frescas nos cansos peitos.
Um rio de vida recorrendo sonhos,
música celestial pra o fino ouvido.

Apariçom a quem che tem devoçom,
que co teu calor fundes-lhe a tristura.
Teu perfume deixa o ar namorado
de inmortal claridade, imaterial.

Semente de eternidades vertendo
polos recunchos do nosso Universo,
magnéticos poderes invisívels,
fonte da saúde, por imaterial.

Convoio i estaçom de sonhos e ilusions,
estrada magnetizada e ingráveda,
mantença clarividente do que sofre,
encantadora de serpes do demo.

Cometa do Mundo que habitas em nós,
és o amor eterno, por imaterial.
Luz viva alumbrando o nosso Universo.
Alma de Deus, nosso amor, nossa vida.

🌟


Moradelha editora



21 decembro 2020

Conto 72 : Chegou o inverno

 




Chegou o inverno
Hibernaçom
 

Apertava os amenceres do verán.
Meus pés bicavam as augas azuis
e os meus sonhos colhiam tua man.
No meu peito um arrecendo de jasmins.

Agora chegou o tempo do inverno
e as nuvens no ceo sonham convosco,
querendo pintar-vos, toda de branco
e a vossa face bicar refrescando.

O azul escuro e vermelho do sol-pór
abre devagar a porta da Lua
e nós, coa nossa fiestra bem aberta,
no nosso privilegiado mirador.

Aquel nosso anaquinho do universo,
Mar de augas de rosas rojas cheio,
rosas brancas coa frescura do inverno,
alentando-nos a vida cum verso.

Quem poidera voltar ali agora,
poder, entras brancas rosas, banhar-me,
alumeado polo clarom da Lua,
sentir do teu corpo a profundidade.

Eu sei que a Lua sempre mira pra vós,
bica os teus olhos co reflexo do Sol
e apaga-se co teu brilho de estrela,
pra que alumees o ceo, luz de Nadal.

🌟



Moradelha editora




Conto 87 : O corvo da Moradelha

  O corvo da Moradelha Quando polos anos 60 triunfavam os Beatles : Em Santomé, polas tardinhas, logo da merenda, os nenos botavan uma parti...