1
A Mina parira ò Mundo,
no Curro, com trevoeira.
O seu miar coma um trono
a todo o eido espertara.
2
Aquela noite sentiu-se
por todo o val aquel parto.
O novo Mundo anuncio-se :
Quatro gatinhos num cocho.
3
Uma loba alá em Novelle,
que olhava aqueles vales,
das terras de Celanova,
os lobinhos espertaram-lhe.
4
Sentia aquelo e pensava,
que era um tigre de bengala,
ouvindo dende um outeiro
tam forte miar do Mundo.
5
Sombra da Pedra Furada
reflexando-se na Lua;
uma silhueta felina,
entras nuvens e a névoa.
6
De noite noreava a loba
cara a Terzas e Santomé,
sempre em pesca de mantença
pra sua cova de Novelle.
7
O Mundo subia aos Castros
pra sentir ouvear à loba;
co amencer do pleno luar,
ò ponente contemplando.
8
Pasea a loba cheirando
as pericas do Arroio
e da majada aquel gando,
a modinho e calando.
9
Eu vou-lhe vendo as orelhas,
sabe, nom tenho medo,
sabe que tenho escopeta,
e nom, que tenho cem olhos.
10
Eu som o moucho Laroucho,
o da escopeta Lereta,
que em toda a noite nom durmo,
gardando minha fazenda.
11
A loba anda com tino,
podo-lhe cofear o lombo,
coa lizença de caçador,
e sabe que estou-na vendo.
12
Sabe que de noite eu estou
sentado no meu corredor
e vai olhando a majada,
de reolho mira pra mim.
13
Nom para de mirar pra mim,
nom pode ter um tropeço,
ou estoupido ha de ouvir,
da escopeta algúm tiro.
14
Se salta a minha majada,
ou o valado do Bande,
dela nunca mais sairá,
e atopará a sua morte.
15
Adoro esse jeito que tem,
espírito silandeiro,
peró tem que sair donda mim,
abandoar o nosso eido.
16
Nom sabe que o Mundo medrou
e agora é uma Bengala.
Nom sabe que eu podo ve-la,
dende todos os outeiros.
17
Nom sabe que eu podo voar,
que som o moucho Laroucho.
Vejo as orelhas da loba,
nom lhes tenho ningúm medo.
18
Esta-te da loba, moucho !.
Ouvea-lhe muito ò luar
e seica fala com ela,
tódalas noites de Lua.
19
Essa loba está bem claro,
que poderia contigo,
é da sua manada a lider
é a mais lista e mais forte.
20
Ja lhe cheiram as pericas,
que tem o Bande no arroio.
Come-te a fame, pobrinha !,
nom che fonde nada o choio.
21
Come-te o medo, lobinha,
vai buscar outra majada.
Eu nom te quero na minha,
assim que bule, caminha!.
22
Uma loba namorada
da sombra dum gran felino,
farta de nom comer nada,
à Pedra furada indo.
23
Foi caminho do Barreiro,
atalhando polos Feás
e o lameiro de Ramiras,
caminhando cara os Castros.
24
Seica a Pedra furada,
semelha a boca dum lobo.
Dim que por ela sairam
um dia, umas águias voando.
25
Uma pedra namorada,
chama por uma lobinha
cuma boca relumbrante,
com cheiros de amor e fume.
26
Alá vai a cautivada
do arrecendo dum gatinho,
pola música do Mundo
e os suspiros que escuitava.
27
Deitado numha alcatifa
de hortensias azuis estava,
grande tigre de bengala,
no médio e médio dum castro.
28
Havia um novo Universo
bem dentro de aquela cova.
Uns quantos milhons de estrelas
alumeavam à loba.
29
E mil planetas de cores,
girando arredor do Mundo,
naquela noite de gala,
naquela noite de amores.
30
Um gatinho de etiqueta,
era um tigre de bengala,
deitado num trono de ouro,
esperava a sua loba.
31
E fora comezou a troar,
sem nuvens a relampar.
No ceo festa rachada,
música nupcial no ar.
32
As gaitas a todo fungar,
sinais dum amor celestial.
Aquel gatinho de palha,
agora um tigre dourado.
33
Numha noite convertido
em tolinho namorado.
Hoje é de mel o Luar,
dentro da Pedra furada.
34
Dous foguetes que cuspirom
lume da boca da cova,
forom polo ceo a estralar
ata o encoro de Castrelo.
35
Coma uma nuve de estrelas,
e cum jeito de castelo,
daqueles contos de fadas,
que sempre corona ve-lo.
36
E aparecérom duas águias
negras e mejestuosas,
sexuais, rante augas do Minho,
diante da ermida da Santa.
37
Cum voo senhorial partirom,
ata o penedo mais alto,
que há no coto de Novelle,
onde aninharom pra sempre.
38
Agora ao sair a Lua,
sempre no Alto dos Castros
o Mundo colhe-a no colo,
mirando cara o ponente.
39
E a loba polo amanhecer,
dorme-a na cova do coto,
no cocho dos seus lobinhos
e retorna-a ò Oriente.
40
Nascerá um home com aas,
um anjo do ceo nascerá.
A loba mira a Oriente,
o Mundo cara Ocidente.